quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Não me cabe
Vivemos
em mundo plural que requer de todos nós uma uniformidade inexistente. Há uma
supervalorização dos padrões de estética (IMC), cor de cabelo, textura, tipos
de roupa; determinam-se a idade para ser feliz e o que se pode e não pode fazer
em cada idade. Tentam, a todo tempo, nos formatar como se pudéssemos caber em
vasilhames ideológicos, sociais e identitários. Triste.
Ao
abrir as redes sociais, vemos imagens lineares e repetidas de pessoas que
querem se destacar, tornar-se “referência”. E, aí, questiono: De quê? Da roupa
que anunciam, dos corpos que cultuam e esculpem à base de dietas inviáveis? Ou
esquecem que muitos, ainda, não conseguem ter uma alimentação digna e adequada
para se ter qualidade de vida? Incompreensível, não? Que mundo é esse que sofre
as piores desgraças seja por intolerância ou por descaso, mas idolatra o corpo
que dizem ser impecável de uma nova “celebridade”( ou seja lá o que for)?
Vi,
pelas mídias, nestes últimos dias, uma discussão que, a princípio para mim, era
irreal: uma pessoa na praia, acho que
namorando um dito “famoso”, foi fotografada de costas, mostrando sua região dos
glúteos. A partir daí, houve uma calorosa discussão, advinda das redes sociais
e também de uma parte da imprensa, das proporções dessa região. Ficou-se
discutindo ( triste demais isso) a garota ter ou não bumbum. Chegamos,
realmente, a um estado de letargia midiática; uma inapetência para produzir
notícias mais substanciais. E será disso que alguns leitores irão se alimentar!
Realmente,
o mundo deve estar com todos os problemas resolvidos e não se produz nada de
profundidade intelectual. E se você não atinge os padrões determinados, virará
motivo de chacota e tema de reportagem,
haja vista isso ser muito relevante para se estampar jornais , revistas e
sites. Lembro, junto a este exemplo, situações vividas pelas atrizes Vera
Fischer e Betty Faria, que foram chicoteadas na imprensa. Primeiro, por que
percorreu um aeroporto e até tirou foto com fã sem maquiagem, mostrando os
sinais deixados pelo tempo, e a segunda por desfilar de biquíni, na praia,
depois dos seus setenta anos, já que seu corpo não é igual às meninas de
vinte.
Ir
contra a maré dos padrões faz-nos ser julgados e inquiridos. Envelhecer, nesta
sociedade pós-moderna, é um desafio. E saber envelhecer, com muita sabedoria e
orgulho das marcas deixadas, é assumir o maior, e, para mim, o melhor dos
riscos. Caso também seu corpo não esteja encaixado na ideia besta -e absurda-
de que ser magro ou super e mega sarado, como o meu não é ( graças a Deus, muito feliz com minha
silhueta),será motivo de debates e críticas ferrenhas.
Estamos subsistindo em discursos vazios; que
se preocupam mais com a “artista” que apareceu suada ao sair da academia à
importância de criarmos um público-leitor de profundidade para que, desta
forma, tenhamos capacidades de questionar, efetivamente, a política, a
sociedade, a melhoria da nossa saúde e educação. E padronizar as pessoas e suas
formas de pensar, verdadeiramente, aparelha o discurso ideológico e fortalece,
em níveis altíssimos, a alienação.
Estou
enfadada de abrir jornais e revistas e ver uma grande preocupação com o que se
usará na próxima estação ou os últimos avanços da cirurgia estética em
detrimento de notícias que abordem temas pertinentes à nossa melhoria de vida,
à importância do pensar e aos nossos ideais políticos, por exemplo. Mas,
estamos adormecidos, com anestesia forte ( e terão efeitos colaterais).
Estamos
obedientes ao caminho estendido até nós, sem indagar novas passagens ou
construção de vias. Reconhecemos que os tempos são dados individualmente, como
nosso corpo e pensamentos, porém, às vezes, somos dados às tolices, aos preceitos
inventados para nós, nos quais não cabemos. Queremos retirar nossa história
para sermos iguais, para sermos estabelecidos pela visão do outro; isso não nos
cabe. As marcas, os traçados, a vivência e a beleza são construídas nas
particularidades.
Texto publicado no Jornal Espírito Santo de fato (29/11/2015)
O
discurso da felicidade
Ser
feliz, hoje, é obrigação. Ao abrir as redes sociais, diariamente, vemos caras e
bocas sorrindo, em situações e ambientes extraordinários. “Todos têm um
tremendo cuidado em passar uma imagem de alegria “espontânea”,configurando a
vida em mil felicidades em estado permanente. Parece-me que não estar feliz faz
dos meros mortais indivíduos loucos e ultrapassados.
Se
não consegue ser feliz por si só, tem-se a cultura do consumo que alimenta,
instantaneamente, a satisfação em substituir. Agora, o perecível assume o lugar
da vida plena e dos presentes verdadeiros das emoções e dos afetos. Consumir em
excesso anestesia a alma e as necessidades do espírito, costurando falsas
sensações de felicidade e de poesia da vida.
Mas,
a estética pós-moderna nutre o mascaramento das alegrias, reificando-as. Você
passa a ser feliz à medida que propaga a imagem de alegria eterna, mesmo que,
por dentro, seus sentimentos estejam em agonia. Mesmo que suas emoções caminhem
ao precipício. Tudo pertence à fotografia no sentido de manter intacto o que
gostaríamos de viver, embora não seja real. Vira imagem, congelamento de
pseudoverdades; orifícios mal cobertos para que não se vejam os buracos, as
frestas que insistem permanecer.
Somos
a sociedade do consumo, da “felicidade” a qualquer foto, da exagerada
valorização do novo, da estética do não envelhecer, dos corpos esculpidos em
detrimento de um cérebro bem trabalhado. A pós-modernidade ostenta o vazio, as
festas, o tudo que se faz permitido, haja vista não se ter a compreensão exata
do indelével, do poder devastador dos gastos e do individualismo maciço. Um
niilismo propagador e crescente.
Vivemos
períodos descrentes, de apologias ao que se (des) consideram ilegalidades,
promiscuidades e imoralidades. Caminhamos, parece-me, sem saber aonde teremos
pouso e damos voos cada vez mais baixos e rasos, escamoteando as esperanças.
Somos sujeitos que se informam em fontes superficiais e de pobreza linguística.
Temos recortes de notícias, refugiando-nos em pedaços de informação, como nos
posts e comentários imprecisos. Ao contrário da arte cubista, a qual sugeria a
visão do mesmo objeto ou espaço em diferentes ângulos, não inauguramos nos
trechos de informação nenhuma visão nem alargamos nosso olhar.
Informações
crescem em ramos, mas conhecimento anda encolhido. Está camuflado, com luzes
queimadas. Conhecer é processo dolorido, exige embate, desequilíbrio e
indagações. Exige da vida interna, do mundo imponderável, que não se apalpa,
que não está disponível em “black friday.” Mas, muitos acreditam que felicidade
do conhecimento está em letras garrafais, anunciadas em programas de TV e se
iludem por isso.
Ser
feliz não é dever. É direito individual. É presente por se manter vivo, forte e
sereno mesmo com todas as danações e os caos que jazem nos nossos dias. É dar
crédito à alma, mesmo que resquícios de lama sujem nossas roupas. Não deve ser
bem de consumo ou uma invenção de quinta categoria como muito se vê nas páginas
de facebook e instagram . A felicidade é nobre, linda, sensível e real, sem
obrigações e máscaras. Então, sejamos felicidade; não a inventemos.
Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato ( 03/12/2015)
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