quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Felicidade meio clandestina

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" Eu não faço literatura:eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever.” Clarice Lispector
É com esta frase que inicio este discurso, que por ora chega-me tão despretensioso, de flores, de ventos que o libertam ou de anseios que fazem questão de prendê-lo. Não sou a mais sábia nem medíocre que não possa dar asas ao que insinuo escrever, ao que pretendo trazer para perto ou afastar de mim.
A escrita, por vezes, é cambaleante, desliza entre pedras pontiagudas, atropela sonhos tão bem guardados e segue sem esmorecer, sem qualquer intenção de resgatar esmolas de um tempo. Ela é alinhada ao que eu vivo ou pretendo, ao que aguardo e ao que deixei escapar, escorregar de mim.
Graças a ela encontrei portos e soltei amarras, atraquei e resolvi guiar marés. Dei de acreditar em tantos símbolos e me tornei tão cética com sentimentos. Ela me devolve o que perdi há tempo e me arranca as precisões que cultivei com tanto zelo.
Graças ao seu arsenal e sua ausência, aproximo de mim e me alieno. Bordo elementos factuais e enovelo metafísicas, agrado plateias e escapo com minha fiel solidão. Dou de gritar com força uterina com as palavras que me aproprio e nego sentenças de existência até minha próxima morte.
Não sei nada nem creio ter. Não canto o vindouro e  nem decreto poemas guardados em gaveta. Sou apenas a incerteza que perambula nas construções menos observáveis. Não há mundo em tijolos, organizado com cimento, nem há o que recolher com as mãos. A vida é apenas isso; o que sempre nos aguarda.
Minha escrita tem me levado ao acampamento de outras possibilidades. Ela tem amansado o que explode e tem me provocado a ira.  Não melhoro meus alicerces, sou a invenção do que não me propus ser. E por conta do caos instalado e do afeto nas manhãs de inconstância, escrevo, lustro o papel com palavras adocicadas e aquelas com fel, que não cicatrizam a boca e nem o mais leve coração.
Em um sábado de dezembro, fui agraciada pelo que permeio e sedimento, ou pelo que estrago e desconstruo. A coletânea “ Esse oficio das letras”, publicada pela Editora Cachoeiro Cult, trouxe minha primeira passagem, meu ensaio inaugural no campo bibliográfico.  Pude, por meio deste livro, significar e reestabelecer o tão importante papel que a escrita tem em minha vida, nas minhas camadas mais densas.
Vi que, mesmos sujeitos errantes, com tanto a dizer, mesmo com tantas faltas e lacunas, temos a palavra como elemento de coragem, de catástrofe, de amor e de desordem. Temo-la  como semente e folha seca, sedimentada em solo úmido e, por vezes, seco também, como universo pairando e cômodos empoeirados. Ela que nos enlaça, nos aproxima como vi, nesse sábado, e nos dá  a precisa ideia de insaciedade.
Somos mortais demais para desafiá-la, bastando a nós, escritores cachoeirenses, ceder aos seus mandos e relativizar os impropérios da existência, a poesia descosturada nas banalidades, as vertentes que nos sustentam e o afeto que nos permite sentir.  É a escrita- a tentativa de vida- que permitiu a tantos presentes, na manhã de sábado, olhar o outro e reinaugurar importâncias recolhidas de uma prosa, um poema, uma história.
Agradeço a Deus, à vida, à Cult, por alimentar minha escrita e recolhê-la. Recolhida e tratada, escorre no papel e costuma deslizar entre outros olhos. São nestes olhos que perpetuarão tantas palavras e outras que, ainda, desavisadas, permanecem por aí. Sou feliz – ou quase- porque escrevo. Obrigada! 




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Vaidosa com a vida

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A vaidade caminha por vertentes mais esguias às que estamos acostumadas. Não é uma valorização de banalidades ou o que consideramos fúteis. Tudo bem, sei que existem pessoinhas que são como cascas, sem suco nenhum. Mas, usemos a vaidade a nosso favor.
Ela nos motiva a querer um lugar melhor ao Sol, nos faz acreditar que sempre é possível pôr os pés nas nuvens, reinventar a ordem da vida ou bagunçá-la por alguns momentos. Acreditar na sua capacidade, reconhecendo que precisa ser feliz é uma vaidade boa. Querer que a vida dê uns saltos e muitas piruetas, chegue com suas novidades desavisadas e avance algumas casas no jogo é redescobrir preceitos de vivência não sondados.
Nada de vaidades plainadas no raso, nos vácuos, nas frestas. Nada de vaidades que afloram nas metidezas diárias, nos homens amantes de seus corpos esculpidos nos treinos repetitivos, nas dietas previstas para que passeiem os corpos nas ruas e praias. Não nos abaixemos diante de uma vaidade sem perspectivas, de folhetim de novelas, de livros de autoajuda, de forma sem conteúdo, de desigualdades.
A vaidade deve ser garantia de sonhos adocicados em noite de lua cheia, em hora de encontro com o melhor dos homens ou vice-versa. Em data sem dia marcado, em risada que deixamos escapar do nosso mundo mais interno, das lágrimas que são cuspidas de nosso coração, do velejar de nossas emoções que dá um jeito de dizer, de olhar, de sair de nós.
Vaidade da boa é mais que busca de reconhecimento, de um querer a si pelos olhares dos outros. Assim, somos pegos pelo ego e suas armadilhas tão ardilosas. Apropriar-se dos valores alheios sobre nós e não tornar o mundo menos barato é anestesiar a vida. Torná-la, apenas, mais uma peça de sua decoração, objeto que perderá garantia. A vida é essência demais, é colorido em nuances e rabiscos, é prosa e poesia dançando no tempo e nos espaços, é gente que precisa desabrochar.
Quereria que minha vida não tropeçasse na vaidade sem partido, sem lado, sem gosto. Nada de sobrevivência aquosa, liquidificada, escorregadia, liquefeita, evaporada. Não quero sofrer de desmandos e desejos em retrocesso, não quero alimento sem tempero, discurso de espionagem ou em casulo, fala embrionária ou embrigada.
Minha vaidade- ou nossa- mora nos cenários mais bonitos, nas janelas que abro quando quero Sol, flores e passarinhos, nas tardes de descanso ao pé de mim e junto das certezas e dos pensamentos fugidios, nas noites que só desejo ver o céu sobressaltado, as estrelas irradiadas e a lua que sempre me chama para uma conversa intimista. Quero vaidade que acoberta receios e proclama que o melhor ainda não veio.



Uma quase balzaquiana


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(Henri Matisse)

Ele adorava suas pernas. Quando se levantava, revelava o tecido epitelial com comedidos músculos, mas sedoso e sedutor, diria. Suas pernas se entrelaçavam, poeticamente, não negando o olhar. E nessas idas e vindas, ele fez apostas, compôs versos e até ensaiou um diálogo.
Mas, não seria tanto. Seus passos traziam um empoderamento, uma inconstância que atraía os mais e menos audaciosos. Sua vestimenta cobria o joelho e isso convertia mais seus olhos, embasbacados diante do cenário não visto.
De um lado para o outro, de desencontros, lá estava a moça que lhe arrancou os olhos e, acredito, o coração do solitário homem. Deveria ter uns cinquenta anos. Era o que mostrava as linhas expressas em seu rosto, a cor dos cabelos, o jeito de abotoar a camisa e olhar os transeuntes. Não mais que cinquenta, talvez um pouco menos. E a moça, pelas passadas e pelas curvas adquiridas, não menos que vinte e oito, trinta anos. Isso. Uma quase balzaquiana atravessando o cenário.
Ele a visitava todos os dias, mesmo sem uma palavra. Um bom dia que seja para disfarçar. Ou quem sabe, “ o dia anda rápido”, “ está tão quente aqui.” Nada. Era fervilhante olhar aqueles contornos cantados nos passos. Achava bonito de vê, dava para perceber o olhar colado no andar.
Tenho a impressão que não se passava um dia que ele não estivesse lá. Mesmo que rápido, já que o dia nos consome em tantas questões. Ele se fazia presente, como parte do cenário, para contemplar o que sabia ser a sua musa, não pensada pelos deuses.
Com o tempo, ela passou o olhar, como se os seus olhos escapassem propositalmente. Desejava que não se habituasse ao espaço, cheio de perguntas burocráticas e obviedades sacralizadas.
Ah, percebia-se que ela era devota de literatura fina, sabe. Em sua mesa, costumava ter livro com página marcada, seja com papel amassado ou uma caneta. E, hora ou outra, dava de ler alguma coisa.
Não foi à toa que lhe perguntei o gosto por Machado e Proust. E ela sorriu, acenando, com presteza, afirmativamente. Aliás, poucas vezes ouvi sua voz que se assemelhava veludo. “Dizia”, realmente, quando suas pernas se levantavam a fim de recolher as cópias saídas de uma antiga impressora lá no canto.
Lá, pelas quatro da tarde, de um dia que não me recordo, apareceu o homem com seus quase cinquenta anos. Sentou na cadeira, à esquerda, no fundo, e decidiu permanecer por ali até que o local se fechasse e, enfim, assumido de coragem e amor, se dirigisse a moça quase balzaquiana.
Ela o olhou escondida e incomodada. Sabia de sua devoção. Já havia sondado os olhares lançados quando dava de levantar. Andou descompensada, reticente, diminuída. A contemplação daquele homem a tirava da linha reta, a fazia intolerante a si mesma, ao corpo que aproximava tantos olhos.
O homem manteve-se, à espera de uma lacuna para que, finalmente, revelasse sua pretensão tão nunca e constantemente declarada. Fim do expediente. Guarda de documentos e pertences largados em volta da mesa. Silêncio pertencendo ao espaço.
Ele decidiu se achegar, refutar formas de desesperança e descrédito que a moça poderia trazer. Pulou algumas cadeiras e solicitou informação ao homem do lado com a intenção de amenizar os ares de desassossego. Ela, neste exato momento, não se encontrava.
Mas, pressentia sua chegada. Mãos, trêmulas, revelavam o quão importante se convertia a moça para a sua vida esquecida. Ao adentrar o local, a olhou e viu sua alma escapar com o coração. Ele a viu tão profundamente que o tempo tocou o espaço. Sorrateiramente, ela sorriu e o perguntou: “deseja algo, senhor?”

Extasiado, ele de leve sorriso, ensaiou duas palavras e acenou com a cabeça não haver interesse em nada. Ela, agradecida, despediu-se dos colegas e caminhou até a porta. Neste momento, sua felicidade não desejava mais nada.
* Texto publicado na Revista Cachoeiro Cult, de outubro de 2016.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Deseja-se amor mais próprio
para as tardes mal-amadas de domingo
e as manhãs preguiçosas de segunda.

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Procura-se emprego que
dê felicidade, manhãs azuis e 
que sustente corpo e alma.


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