terça-feira, 3 de junho de 2014
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
sábado, 31 de maio de 2014
Do
amor
Deu
saudades do amor.
Embora
minhas mãos trêmulas,
meu
braço dolorido,
minha
manhã cinza.
Quis
cantar canção...
Trazer
dourado para meu quarto.
Mas,
sinto-me próxima do outro caminho.
Sinto
desconforto,
mas
bateu esperança.
Tenho
insistência,
mesmo
que meu desenho trace só rabiscos.
Sinto
falta,
Não
quero ausências,
mesmo
que suas canções
se
aproximem de meus ouvidos.
Sonho
tardes alaranjadas e desejos bem verdes.
Tenho
vontade de alimento doce, que dissipe minha fome.
Quero
chuva que traga flores
E sol
que me acorde cedo,
invada meu espaço e me traga para janela.
Amor.
Quis
sempre perto .
Invento ser feliz todo dia,
com
café, geleia e beijo.
Sonho
desavisada.
Sem
anunciar desejos e sensações.
Acordo,
por vezes, cansada.
E
durmo com gritos do mundo.
Me
sinto universo demais
para ocupar um único corpo.
Quero
ser protegida,
mesmo gostando
de voar.
Arquiteto
coisas extrapolantes,
Mas
gosto mesmo de palavras
que estão ao meu lado.
Sou
cotidiana, sem perder o inesperado.
Amor,
para mim, é rotina com beijos roubados.
É
certeza com todas as dúvidas.
Sinto
muita saudade
Emoções
que , por vezes, desconheço e não percebo,
mas
quero!
Solidão
é bom para escrever...não para caminhar.
E
aproveito da escrita para me realinhar.
Registrar
com paixão como o amor me humaniza.
Ele me
traz pra perto de Deus, de sua beleza.
Não
quero dar com a cara no muro.
Nem
tão pouco trancar minha casa
e
esperar as contas chegarem.
Quero
amor, de carne e alma.
Amor
que me acalma e me cansa.
Daí,
dorme-se para revigorar.
Dorme-se
junto,
sela-se
o trato.
É...amor
é trato ...
Documento
assinado de paz, desordem,
Lealdade
e gargalhadas.
Do amor, quero sentir saudades,
Receio,
medo...
E
ter pele também.
Quero
amor todo dia,
Embora
, às vezes, só apareça nos fins de semana
Quiçá
os feriados...
É
desse amor que me reinvento.
Me
alimento.
Me
anuncio.
E
permeio meu discurso.
Quero
amor feio e bonito.
Amor
de festa e de ressaca.
Amor
tranquilo, mas que traga barulho.
É
dele que sinto saudades....
terça-feira, 27 de maio de 2014
Em Tempo
Eram três horas. Alice sentia-se
atrasada. Era comum ter dificuldades com o tempo, apesar de colecionar vários
relógios. O último recebido tinha guardado ali, em sua cabeceira, como prova de
que era lembrada. O tempo lhe inflamava,
às vezes, mistérios e sentenças.
Em sua aula de filosofia, tinha
lido que o tempo é a marca da humanidade, somos construídos sob ele e não há
como fugir.”É um conceito percebido pela vivência, parte de nossa percepção
mental”. Ao ler isso, se convenceu que sempre viveu à espera, sempre delegou
aos outros sua tarefa de sobrevivência.
Os relógios, objetos de coleção,
foram tentativas de se agarrar ao tempo, costurando elementos de seu antes com as considerações de seu porvir. Nada está
sentenciado, mas suas vivências até então nunca tinham lhe causado tamanho
desassossego e indagações, que estavam escritas em seu espelho mesmo sem perceber.
Que danação!
Como forma de se apropriar de
algo, que nunca tinha conseguido, recorreu à caixa de relógios e alguns
escritos empoeirados que se depositavam na cômoda rotineiramente aberta, nem que
seja uma fresta...e de espaços minúsculos ela gostava.
Com a caixa em mãos, refez a
trajetória de cada relógio que comprou; aqueles de liquidação até os ganhados
em datas importantes, pois todos sabiam de seu gosto esquisito por essas peças.
Contemplou cada um e começou a se lançar perguntas, coisas que não era
costume.
Recorreu a seu livro antigo e
arregalou bem os olhos quando leu que, segundo Kant, não há realidade de tempo.
“O tempo é uma noção a priori que não designa nada além de
determinada característica do nosso modo humano de receber informações através
dos sentidos.”
Nesse momento, percebeu que seu tempo era uma
invenção de sua mente anestesiada. Passou a indagar que nada era real, os
relógios apenas se apropriavam da organização. O que fazer de si agora? Não
estava ainda acostumada com essas reclamações internas, nem tão pouco dar
vivência a esse tipo de leitura. Tudo pra ela sempre se concebeu chato, mas
acreditava ser o tempo o limite entre a realidade e os seus desejos.
Costumava receber verdades alheias, e tomá-las
aos goles, mantendo-as como certas até que outros falassem. Mas agora estava
sem o visgo que a mantinha na realidade, sem o alimento que a nutria. Esse
escape não era esperado por sua personalidade. Questões que a atiravam em um
momento desconhecido. E os seus relógios... o que fazer com eles. Isso pairava,
neste instante, em suas concepções. Tentava guardar sua noção de tempo, que
escorria, neste presente, pelo ralo de seu banheiro.
Sem realidade palpável, num corpo esguio, como
sobreviver neste caos. O tempo, pensava, não segue escala cronológica nem
define meu momento de comer. Ah...agora sentia uma fome descomedida, uma
necessidade que consumia muito mais que suas vísceras, corroía seu espírito.Era
seu momento epifânico.Em êxtase, passou a olhar.
Alice guardou sua coleção. Não esqueceu de
fechar a gaveta. Passou a visitar cômodos esquecidos. Limpou seu espelho. Inaugurou
ordens e passou a se alimentar, uma fome que não conseguiu saciar.Com o passar
do tempo, aprendeu a mexer nos ponteiros dos relógios e resolveu dar de presente
o relógio de cabeceira.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Nascido do barro
e do oco
Eis um ser
barroco
Do caos e da
ordem
De orifícios e
lacunas
De sandices e
sermões
De espírito e
corpo
Um corpo que dói
e goteja
inundado da dor
de nascer
Morrer não é
sentença.
Nascer não é
recompensa.
E a vida
grita...
Entre simulacros
e dissimulações
Entre barbáries
e ideologias
Entre mitos e
novidades
Unívoco e plural
De raiz e
folhagem
De subúrbio e
passagem
Do antes e da pós- modernidade
Entre durezas e
linhagem
O indivíduo
refeito do antes
e do inesperado
promovido do
acaso e do criado
desenho do
imundo e do desejado
O ser barroco
Inventado do
barro e do oco
terça-feira, 20 de maio de 2014
Você quer?
Estamos sempre perambulando pelas escolhas. Das fáceis às
difíceis...das fatídicas às perenes.
Com o poder das escolhas, construímos pontes, sentenciamos
ausências e trazemos pra perto. Desconstruímos linhas do tempo e alinhavamos
nossos sonhos. Escolher não é uma ordem, é indispensável. Mas, temos a sensação
que , muitas vezes, desmoronamos em meio a elas. O chão forte, bem
cimentado, no qual achamos estar firme, se
consome...pairamos, agora, no ar, no que restou do equilíbrio.
A escolha nos faz algozes de nós mesmos, mas precursores de
muitas coisas. Ela nos alimenta e delimita nossa capacidade. Somos frutos de
muitas escolhas...podemos ser novas árvores também.
Lembro desde criança que escolher para mim sempre foi meu
caos, a sensação que me causava mais “pânico”, mas aqui estou por conta das
minhas escolhas. Encontro-me castigada e especial por poder fazê-las.
Escolhemos ser felizes, escolhemos a conta bancária e o mais
belo jardim em nossas casas? Escolhemos
ser quem nos tornamos, escolhemos a rua da vida que nos enveredamos? Tantas
escolhas...e a do amor então...como é bom nos embebedar pelos abraços e beijos
molhados... pelos versos amorosos e sentenças de carinhos.
O amor é uma escolha. Qualquer que seja ele. Uma escolha da
humanidade em construir novas “leis” e novos valores. Uma escolha de sobrevivência.
Escolher é inerente à vida...nossa forma
de desacampar momentos, reinaugurar olhares e desenhar novas ideias.
Deus, em sua infinita sabedoria, deu-nos escolhas, sabendo que
somos responsáveis por elas. Ser humano requer escolher entre o vertente e o
imponderável; o presente e a ausência, entre a denúncia e o silêncio.
Nesse diálogo, cá estamos nós. Somos o resultado de uma soma
exata ou com números a dever. Somos a danação e a melodia perfeita. A prosa
convertida em poesia. Somos o estrangeiro e o local. Nessas bifurcações e
dilemas, vivemos pelas escolhas, nas e para elas. É delas que construímos nosso
discurso, vivemos frustrações e criamos o medo ou a coragem. Mas, em meio a
tudo, a escolha é um presente, às vezes mal embrulhado, que vale à pena
ganhar....vou abrir meu pacote.
sábado, 17 de maio de 2014
O Mundo É Um Moinho-Cartola
Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés
Desejo o improvável
Desejo o impossível
Desejo mais manhãs floridas
Menos dias cinzentos
Menos tardes de inverno.
Desejo o que pulsa,
Provoca,
Arrepia,
Alegra,
Comove.
Menos certezas mais belezas
Mais poesia menos melancolia
Menos intolerância mais esperança
Meu coração veleja nessas inconstâncias.
Entre menos e mais desejos.
Desejo o impossível
Desejo mais manhãs floridas
Menos dias cinzentos
Menos tardes de inverno.
Desejo o que pulsa,
Provoca,
Arrepia,
Alegra,
Comove.
Menos certezas mais belezas
Mais poesia menos melancolia
Menos intolerância mais esperança
Meu coração veleja nessas inconstâncias.
Entre menos e mais desejos.
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