quarta-feira, 2 de março de 2016

Tons poéticos


Sempre ouviu com receio, pois percebia coisas que ninguém conseguia vislumbrar. Sentia aos cacos e, na mesma medida, com intensidade de trovões e tempestades. Era natural não se enquadrar por tamanha percepção; incomodava-se com os ruídos dos outros, com as mesmices ecoadas diariamente. Já nem conseguia levar uma vida dita tranquila tamanha sensibilidade, embora, nunca quis ser mais um par de pernas seguindo por aí.
Era demais  existir. Reclamava das mesmas músicas, das mesmas expressões disseminadas entre gargalhadas e palavras tão ausentes de si, de densidade. Sua percepção auditiva o fazia ir além das paredes, das histórias contadas em televisão ou casos ditos em dias de boteco.  Ele não reclamava de viver, de possuir garantia de oxigênio. Queria quintal frondoso de frutas, bem docinhas, é claro, leite e cobertor quente em dia de sereno, chegada de carta sem aviso prévio, mensagem bonita no celular e muitos dizeres poéticos.
Gostava de ouvir palavras que vinham com carga, com cheiro, com voz macia e provocante, com tom de reticências e ares de ser imprudente. Em noite de céu limpo, gritava seus poetas mais audaciosos e percebia, com delicadeza, o som dos insetos escondidos nas folhas. Sentia frutos caindo em sua terra recém-molhada, apalpava sensações quando dava de pisar baixinho. E, em dias de indelicadeza, cantava, aos berros, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e sua Ângela Maria. Repetia mil vezes “ Conceição/ Eu me lembro muito bem...”. E sacaneava sua vizinhança que adorava frases fáceis, cantarolando canções de Chico, Tom, Cazuza. Chegava se atirar na janela para que todos ouvissem seus artistas de verdade.
Não aguentava a conversa da fila do açougue sem misturar palavras  de tédio com receitas de poesia. “ Daí, você mistura os condimentos na carne com filetes de poemas bem ditos, daqueles que não se encontram em qualquer esquina”, dizia com tom de deboche e com remendos de amor. Já que tinha dito adeus ao seu quase grande amor há poucos dias, e deixado de ouvir sua voz, que era o que mais doía, estava entregue a loucuras, a expressões poéticas vestidas de ousadia, a discursos de amor brega, a pedidos de socorro clamados na alma, que, em determinados dias, era possível ouvir quando alguém o abraçava.

Enfim, ele considerou seu poder de audição essencial para que fingisse ter paz. Para que disfarçasse sua coragem e suas formas de cantar e brigar com medo. Não podia negar que ouvir era extremamente agradável quando, naquela noite, resolveu chorar seu quase amor, ouvindo- chorando Noturno ( op.9), de Chopin. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Odores insanos


          Sou dada a cheiros, odores, fragrâncias, ares. Gosto do gosto amargo daquilo que me deixa doce. Gosto de pimentas ( seu cheiro), daquelas que queimam a garganta. Tenho gosto por paladares fortes, e gente também. Sempre caminho para cheiros incomuns, uns que dão vontade de seguir para ver onde dá. Fico indagando cheiros, tentando adivinhar sabores, o que me evoca tal odor.
Cheiro livros, comida, roupa. Acho que, por isso, invento abraços e indago o cheiro que as pessoas têm. Gosto de exalar também. Meu homem cheira bem, deslizo no cangote para engolir seu cheiro na minha pele. É metideza  querer que o outro exista em mim. Construa seus alicerces em figura semelhante.
Dê de olhar por meio das minhas retinas. Ouça o mesmo som que agrada meus tímpanos. Sorria usando minhas, só minhas expressões, e use a gargalhada com meu timbre. Mastigue, com tamanho prazer, a comida que encanta meu estômago.
Ah, cheiro traz lembranças de dias comuns e de eventos extraordinários. Amo cheiro de vó, de afeto com café, de impressões mal delineadas, que se resolvem com “nossa, que cheiro”. Cada objeto tem seu odor particular, cada ser vivo também. O cheiro é  marca, registro identitário pairando no ar, elevando pensamentos a instâncias bem resolvidas e ainda não experimentadas.
Mas, cheiro de gente cabe bem. Gente que cheira bom caráter, leveza de alma, que é solar, sem nuvem negra sobre a cabeça. Gosto de cheiro de gente feliz, que adora mostrar os dentes, mesmo que um pouco amarelados, que traz refrescância, tipo propaganda bonita de pasta de dente. Cheiro de gente que se descasca, que reflete, ilumina a chegada e deixa vazio quando parte. E se vier com um bom perfume, então, será extasiante...

           Mas, cheiro de livro dança nas ideias que chamo de autoria. Livro traz mares e rios, flores que estão amanhecendo, recados de carinho, gritos de dor, carta de amor romântico e discursos .  Alguns são manuais em mandarim, outros traduzidos em língua recém-criada, outros estão em análise. Caso queira, cheiroso leitor, explico tudo, mas dá cá seu livro pra eu cheirar. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Ações para a vida

Desejo a você, leitor, um ano cheio de possibilidades e vontades lindas. Vão aí algumas ações que tenho certeza que te ajudarão:
Promova a paz em si mesmo para que sua luz brilhe nos olhares alheios.
Seja sincero com suas verdades e acredite em suas inspirações.
Não se esqueça de contemplar a sua face mais profunda para que sempre encante a alma.
Seja o aprendiz da felicidade para que dissipem regras e construa novos universos .
Adorne a tua casa com as flores e perfumes que inebriem a quem adentrá-la.
Fuja de pensamentos acinzentados e que provoque zunidos em suas escutas.
Não adormeça suas melhores partes, nem as tornem fragmentos demais.
Escureça doenças da alma e dê cores às ideias fomentadoras.
Agregue pessoas e manifeste seu afeto por elas.
Leia bastante para que sua mente e sua alma estejam bem alimentadas.
Seja solidário a seus desejos e projetos. Realize sonhos!
Cuide do seu maior bem: a sua existência.
Ore com profundidade. Conecte-se com Deus.
Ame com toda coragem e certeza. O amor não se contenta com migalhas.
Doe tempo a você. Passe mais momentos com sua companhia. Fará muito bem.
Retire o pó e o ranço do cotidiano. Invencionices criam perspectivas.
Seja tolerante. Invista em paciência. Mas, engolir sapos e demais anfíbios com frequência causa muito mal ao estômago e ao coração.
Tenha estrela no olhar. Isto retirará as casquinhas das banalidades e o intitulará indivíduo e humano.
Carregue muita poesia no bolso e no coração. Precisamos de essência, emoção e beleza.
Não espere demais. Não crie expectativas demais. Isto gera frustração. Melhor desarrumar algumas malas.
Tenha sorriso grudado na boca, lágrimas armazenadas nos olhos e leveza no coração. A vida traz fardos que carregamos, melhor termos um coração iluminado no amor e nos sonhos.
Acredite! Você pode amanhecer todos os dias a esperança e desejá-la um bom dia!

* Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato

Nas pedras e roseiras


Nestes últimos meses, viver tem se mostrado uma façanha pra lá de incrível. Vemos que os aumentos ( dos preços) dos serviços e produtos tornaram-se um agravante para que desanimássemos um pouco sobre o presente e futuro. Ainda, vemos um ser humano cada vez menos ser humano, dotado de sentimentos negativos e uma competição desenfreada para que alcance poder, dinheiro e status a qualquer preço. Sim. O quadro apresenta-se difícil, porém, costumamos dar, sempre, à volta por cima e fazer de um limão uma gostosa limonada.
Viver é precioso demais. Somos o melhor presente da vida. Peça única, que nunca deve ter liquidação. Mesmo diante de dilemas corrosivos, que cortam a carne e a alma, somos capazes de cicatrizar e, mesmo com a marca, seguir radiantes e mais belos ainda. Já dizia Rubem Alves que “ostra feliz não faz pérola”, já que para criação da pérola é necessário ter um ser estranho dentro de si( ostra) , sendo tal “joia” uma reação natural contra invasores. Logo, tal beleza, de valor altíssimo, surge de um processo dolorido.
Não é diferente de nós. Só atingimos crescimento e nos tornamos menos fracos à medida que sofremos os embates. Quando somos postos à prova e temos que reagir na tentativa de soluções e mudanças. É, neste momento, que vemos o quanto somos capazes e sensíveis a uma postura diferente, modificando nossas ideias e atitudes. Ninguém é feliz na dor, mas ninguém cresce em um jardim florido e perfumado. Já disse, em um dos meus textos, que somos criados nos contrastes; sabemos definir e querer o bem porque alguém já nos fez muito mal, gostamos do calor porque os frios doeram os ossos.
Cora Coralina poetiza que a vida tem duas faces: positiva e negativa, sendo lutas e pedras lições para que saibamos viver. Logo, rasgar as costas nas paredes da vida e furar dedos em espinhos nos fazem mais sábios e melhores. O sangramento, as agonias e os caos que selarão nossos modos de olhar e compreender a existência.
Se a janela não se abriu hoje, abrimos portas, quebramos paredes e vemos de orifícios e de grandes buracos o Sol e a chuva que sempre se aproximam. Se nada funciona da forma que sonhamos, conversemos mais com Deus, leiamos muito mais poesia e ouçamos aquelas canções que nos arrepiam, nos fazem fugir um pouco das rudezas diárias. Mas, viver é indispensável!
Sorrir é maravilhoso. Chorar lubrifica a alma. Dançar aquece e aproxima o corpo do outro e de você mesmo. Trazer lembranças lindas, de viagens, de festas, de um momento único, traz flores para um jardim, às vezes, esquecido. Abraçar é estar junto e se doar. O beijo sempre inebria. O elogio reinventa possibilidades. O toque nos amacia. Valorizar quem está com você é uma forma de dignificar parte de nós. Mesmo que haja crises, cortes, falas de desesperanças, não se ofusque, nem turve sua vida com canalhices de gente sem cor e flores na alma. Faça como Cora, “ recrie tua vida sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”



* Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016


A felicidade sempre agradece
Por Simone Lacerda
Entre corpos e pernas que passavam ligeiros,
corações  envelhecidos na rigidez cotidiana e
feições em cicatrizes,  
vi em quadro, pendurado na parede suja,
a frase: Seja feliz!
Como sentença e solução imediata,
senti a possibilidade de bálsamo
e tempero saboroso para os dias em branco.
Ressoou por muitas datas esta frase
e reencarnou o gosto do sorriso.
Estanquei cortes inflamados
e cancros que se rebelavam nas dores.
As palavras penduravam, como enfeites,
afetos em mim.
Felicidade é ousadia desprendida.
É fino trato e afago nobre.
E perpetua esperança,
tão rareada nos tempos de dureza.
Sorrir é ser solidário com o olhar do outro e suas partes.
É aformosear cenários da vida
e trazer essências amanhecidas.
E ser feliz é ter ousadia saltando de dentro.
E falta de tempo para madrugar medos.
Logo, apanhei a frase interna
e rabisquei  todos os cômodos.
Percebida que traria cheiros
e canções para minha alma menina,
estendi a cartas,aos versos e a quem passava.
Fui louca, estranha e até engraçada.
Mas, de tanto dizer,
vi  perpetuados ouvidos e dizeres.
Já propagavam muitos: lá vem a insana com sua poesia bacana.
Vem  trazendo festa com o tal de ser feliz.
E, sob os tempos de Sol e estrelas,
distribui os recados da nova ideia.
E de parede suja, de quadro torto,
brotava  o bem inadiável,
 a emoção etérea,
o visgo perene da humanidade.
Seja feliz!

( Pendure em você! A felicidade agradece.)

*texto publicado na Revista Você Mais( dezembro de 2015)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016



Estômago Vazio
 “ Não quero a faca nem queijo. Quero a fome.”Adélia Prado
Aproximo desconfiança de quem só come pelas beiradas. Gente que alinha passos nos filetes e nem estende a margem. Viver é preciosidade, feito pedra preciosa tirada do limo, sendo necessário esfregar bem as mãos, limpar, polir e encerar. Penso, logo, em minha vivente-poeta Adélia Prado que sintetiza a vida  como sinal de boniteza; uma delicada engrenagem.
Sim, o movimento é que garante a vida. A dança que provoca o cosmos, faz a gente acreditar na fé e trazer muitas flores para a esperança, minha companheira de longa data. É dela que retiro o pó dos dias, refaço os rascunhos esquecidos na gaveta e arrumo, com precisão e detalhes, minha bagunça amanhecida.
Trago Adélia entre meus versos e dou para mastigar suas palavras. Gosto quando poetiza que dor não é amargura. E que sua alma nasceu desposada. Dor e alma tendem caminhar em estradas próximas, trazendo espinhos para a carne, o que traz invenções para meu jeito de apanhar alegrias e enterrar, no fundo de casa, aquelas tristezas danadas. 
Sou dada a poesias, costumo engoli-las em doses homeopáticas, mas gosto mesmo de apreciá-las como prato feito, engolindo, vorazmente, porque costumo ter muitas fomes, em todas as horas do dia. Como amor com preciosidade, sentindo cada pedaço para que traga para o coração as vitaminas necessárias.
E saudade! Ah, saudade mastigo, delicadamente, com medo de escapar... aí, não a terei mais e ficará o gosto inexato da ausência. E ausência está sempre no prato como tempero, pimenta forte e verdura mal cozida. Além disso, o medo deixa a comida salgada demais ou traz aquele dizer insosso. Tira o desejo!
Sei que viver faz a gente rasgar as costas em paredes rugosas, com pontas salientes, que chega sangrar e, escorrendo água, a dor triplica. Por isso, tem tanta gente querendo comida light, sem peso, parede lisa, bem amassada, podendo passar  sem qualquer sentença de risco. Gente que nem deseja sobremesa e bebida. Gente que prefere criar o óbvio e nem se culpa por não conhecer a poética adeliana.
Mas, prefiro correr o risco dos dias coloridos e das fotos em PB. Prefiro o visgo das horas, mesmo que tenha espectros sondando as tarefas. Não negligencio a caos nem o paladar amargo. Também sou capaz de equacionar a felicidade e inventar trejeitos de alegria. Trago seivas de esperança nos olhos mesmo estando soturnos. Mulher nasce desdobrável, responde Adélia para mim.


* Texto publicado na Cachoeiro Cult, novembro de 2015. 






Cachoeiro de Itapemirim, 29 de dezembro de 2015.

Prezado Tempo,

Estava para escrever para o senhor há muitas épocas, mas, como fiz com muitas coisas, deixei o senhor passar e delimitar a hora exata para que eu pudesse registrar algumas considerações sobre suas atitudes. Sei que este ano não foi fácil para ninguém. O mundo e o nosso país passaram por problemas complexos, ainda, sem resolução.
Todos dizem que o senhor é o determinante para todas as coisas, sejam elas boas ou ruins. Dizem que somente o senhor é capaz de resolver os grandes dilemas, basta nós esperarmos sua atuação. E ela, muitas vezes, eu acho, é lenta como gota que escorre de folha de orvalho em dia de geada. Outros, a seu favor, falam que age no momento propício, quando tem que ser, sabe.
Sei que nós vivemos em sua função, determinante para indicar a hora do trabalho, o momento de dizer coisas do coração, o momento exato para abrandar aflições da alma. Logo, sua importância é vital para que consigamos sucesso, fracassemos e superemos os males.
Neste momento, no qual as pessoas renovam suas esperanças, tentando deixá-las mais bonitas e familiares, o senhor torna-se de suma importância para que se plante o futuro. É comum nestes dias pontuar o que foi enriquecedor, foi bom ao coração e à mente e o que deixou marcas doloridas e inflamadas. E, aí, o senhor, novamente, atua como bálsamo ou como um veneno.
Queria dizer que este ano reinaugurei muitas coisas em mim. Com o seu auxílio, superei os muros que teimavam cercar a minha casa, aproximei afetos e pessoas e dimensionei minha função nesta sociedade ainda que injusta e impetuosa. Experimentei cenários e nem neguei meu papel feminino e minha poesia. Tenho que agradecê-lo por tudo isso.
Agora, o senhor nos dará um renovo; uma possibilidade de reconstruir um presente melhor, com ideais de igualdade, felicidade e paz. Realmente, senhor Tempo, é o que todos queremos. Apagar o que nos deixou acinzentados e amargos para que, nesta nova etapa, haja coloridos, arco-íris em nossos céus.  Queremos muito que o senhor nos ajude a sermos sujeitos melhores, menos toscos e individualistas e mais solidários, amorosos e  complacentes.
Desejamos também que o senhor seja mais compreensível conosco. Seja paciente com nossos erros, fazendo-nos entender as lições tiradas a partir deles, pois, acredito que poderemos ser humanos mais reflexivos e ponderados nos pensamentos e atitudes, vendo o outro como parte de nós.
Espero que compreenda a carta, haja vista a necessidade de expor meus sentimentos e minhas opiniões, como também meu grande sonho de ter um ano novo mais feliz, com conquistas e vitórias capazes de me transformar em uma pessoa mais forte, justa e humana. Sei, coloco aqui, que isso também é o desejo de todos os meus semelhantes.
Deixo, ao senhor, um abraço de vida e agradecida por tudo que fez por nós!

                                                                                  Simone Lacerda


* Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato, 29/12/2015.