Dias
Vivo sozinha há três dias,
há duas décadas,
há cinco séculos.
Vivo sozinha por horas
e mantenho-me na clausura por minutos.
estou sozinha aqui nas paredes deste cenário sem traçados.
A solidão me ampara,
delineia os espaços do meu corpo
das ausências que brotam aqui.
É ela que me espera nas tardes de Sol baixo,
nos tempos de cólera, de inflamações.
Ela não me anuncia nem denuncia os percalços
que insistem marcar os pés.
Estou só.
Sozinha trago as partes não enaltecidas,
mofadas nas frestas de uma tarde mal amada de domingo.
Dias ímpares
Dias pares
Sozinha amanheço
e permaneço no afiado tempo.
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Tecendo-me
Por estes dias, tenho
estado decepcionada. E como dói nutrir tal sentimento, como massacra
tal constatação. Sei que a danação humana faz parte da minha
alma, tão encharcada de sentimentos e emoções. Decepcionar-se faz
parte de nosso crescimento, faz a gente costurar novos cenários.
Criamos perspectivas em
relação ao outro, e esperamos receber aquilo que idealizamos. Mas,
a alteridade faz parte da nossa construção. É ela que nos define
como sujeito único; cultural, moral e histórico e eleva nossas
potencialidades, tão especiais.
Esperar um presente tão
desejado e não o receber acalenta nossa frustração, alimenta nosso
vazio existencial. E, deste vazio, brotam sensações amargas, que
nos envenenam lentamente e desfalecem nossas esperanças.
Muitos irão dizer: ”faz
parte da vida”, mas não me atrevo acostumar com o que me
acinzenta. Não quero conformar-me com a mesquinhez do homem. Sei,
vou descosturando os preceitos idealizados e me aventurando nas
realidades construídas nos intervalos dos dias.
Neste contexto, remeto-me
à música de Cazuza, O Tempo não Para, continuando “disparar
contra o sol”, “correndo contra a direção contrária”.
Sabemos das incertezas humanas, mas acreditamos que venceremos as
canalhices ( eu continuo acreditando), as apatias emocionais e as
ações que subvertem o respeito e o amor.
Ao escrever a letra
musicada, Cazuza se encontrava cansado das mentiras, barbaridades,
intolerâncias e injustiças. Doente, percebeu doenças maiores no
outro; naquele que prefere virar o rosto, julgar, magoar a usar de
gentileza e amor supremo. Poeta, Cazuza conseguia extrair as emoções,
mesmo petrificadas nas pessoas, e ecoá-las para que pudesse estampar
as mudanças imprescindíveis.
Decepções a parte,
somos humanos que podemos vislumbrar além da paisagem da frente. Se
as decepções doem, elas criam calos e nos tornamos mais fortes e
maduros diante dos dilemas que todos os dias batem a nossa porta.
É, sem dúvida, o que
nos machuca o responsável por nos garantir a sobrevivência entre as
feras, já poetizava Augusto dos Anjos ( Versos Íntimos). E ele
estava certo! Em todos os cortes, as cicatrizes prevalecem. Não que
eu esteja árdua e triste, pois, legitimamente, não estou.
Estou usando os cortes,
as falhas e frestas para tornar a realidade e a razão mais
perceptíveis, de fácil acesso em minha vida. Depois das decepções,
sobram experiências, reflexões e matéria-prima para conversas das
boas, para as costuras cotidianas e, ainda, render excelentes
histórias.
sexta-feira, 1 de julho de 2016
terça-feira, 28 de junho de 2016
Nossa
ferramenta diária
Gosto de abastecer
pessoas. Gosto de retribuir com os achados que catei entre mundos e
jardins ou que foram conseguidos com muitas lutas. Conhecer é
encantador, mas dói, exige enfrentamentos e a retirada das sujeiras
da covardia. E, desses enfrentamentos, aparo frestas e quinas e trago
para o outro o que ficou de presente.
Acredito que já temos
cortes o suficiente para continuar trazendo lanças ou disputas
desiguais nas corridas da vida. Desejo poesias de inspirações, de
amores que estão amanhecendo, de gente de estrela nos olhos. É por
isso que luto diariamente. É nisso que fortifico minha escrita, a
forma de me desprender das maldades e ter esperança nutrida.
A leitura e a escrita
permitem que não neguemos o mal, porém, que saibamos dialogar com
as marés e recondicionar o que nos aflige e nos causa paz. O
conhecimento alimenta a fé nas pessoas, a reflexão diária para
onde caminhamos diante de um mundo mutável e catastrófico.
Vemos a intolerância, o
desrespeito, a maldade, a vingança ganharem cenários. Vemos também
atos de altruísmo, de felicidade, de carinho, de gentilezas. E o que
pretendemos preservar? Acredito que desejamos permanecer com as
flores, mesmo que murchem, que queremos a justiça inflamada nos
olhos e nas atitudes e o companheirismo nos abraços coletivos.
Conhecer faz de nós
seres singulares, pulsantes, os quais sempre se dispõem a renascer,
a se inventar. A palavra deflagra, polemiza, reconstrói, ameniza,
dignifica. Ela lança as redes e oferece novos portos, ela aproxima e
redesenha os olhares para os invernos, as memórias, as expectativas
de um amanhã ensolarado.
Lembro com lindeza de
meus autores que utilizaram seu discurso para ferramenta de crítica,
instrumento de liberdade, aprimoramento de ideias, recortes de
anunciação e dilemas, poesia que ilumina a vida e traz canção
para a alma, desenhos de sujeitos, enfim, para que o mundo não se
conformasse nem tão pouco o homem se tornasse mecânica de manobras
e alienações.
Escrevo para que eu tenha
remédios, a fim de que meus cenários não se desbotem e eu consiga
ver, bem mais que os olhos me sugerem. A escrita possibilita que meus
naufrágios não me superem, que minha morte seja renascimento, que
minha fala potencialize minhas crenças e meus espaços tenham poesia
para que eu possa me apoiar quando muitas coisas estiverem em
desordem.
Então, como presente de
inverno, ofereço a minha escrita, a minha poesia diária para que
não murchemos nem permaneçamos nos marasmos que o cotidiano nos
oferece. Não dissolvamos nossos achados, nossas vontades de ter dias
mais encantadores. Conheça, busque muito de si e oferte o que fez de
ti este indivíduo tão espetacular. Leia, informe-se, escreva,
produza e ressignifique o melhor da humanidade.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Nosso epitáfio
Somos
agraciados todos os dias pela vida. Sentimo-nos humanos porque somos capazes de
respirar, sentenciar e pensar. Ao longo da nossa história, aprendemos, erramos,
superamo-nos, lançamos expectativas, descosturamos perspectivas e damos, novamente,
os passos, como um constante costurar e desfazer a linha. Mas, temos como
certeza traçada a morte. Dela, não conseguimos nos esquivar, disfarçar seu tom,
iludir e desinteressar.
Chega
o dia que vamos nos escapar. A vida escorrerá e colocaremos um ponto final na frase produzida durante o fio da vida por nós.
Estamos em um novelo que se consome, todos os dias, e que, um dia, não o
teremos. E nisso não há divisão. Se, hoje, vemos a sociedade construída sobre patamares econômicos, nos quais muitos
valem pelos bens financeiros que possuem, a morte é capaz de acabar com todos
eles.
É
nela que nos mantemos iguais, com todas nossas mazelas e insuficiências. A
morte é a resposta da vida. A cobrança pela nossa humanidade. O resultado de
uma vida inteira. Não a vejo como punição, mas como a verdade para que não
sejamos tão egoístas, prepotentes, vazios, arrogantes e ausentes. Morrer é
esvaziar-se de toda nulidade, de toda indiferença, de toda rispidez e
mesquinharias.
Ela
sustenta as desimportâncias de uma vida vazia, corrupta, triste,
individualista. Nela, não há dinheiro, altivez, mentiras, posição social,
beleza externa, enfim, nossas misérias que gostamos de ressaltar, de registrar
nas ações mais grosseiras, mais inúteis. A morte, não aceita por todos, é a
afirmação de toda uma vida. Andamos acelerados, devagar, imprecisos ou certos
para que, a qualquer momento, encontremo-la no virar da rua. E de que valeram os passos? O que deixamos?
São
indagações fundamentais para que mudemos a partir de agora, para que reflitamos
o que construímos sobre nós, pois será isso que se manterá nos outros, nas
memórias, nos exemplos, nas conversas memorativas, nos pensamentos que nos
farão resistir. Não mais em carne, mas em lembranças, em legados.
Já
dizia a canção ( Nuvem Passageira- Hermes Aquino) que somos nuvens passageiras,
somos cristais, que, portando de uma vida delicada, poderá quebrar a um
instante. Como somos frágeis, não? E tanta gente cometendo atrocidades, vivendo
da enganação alheia, retirando os direitos do seu semelhante, deturpando ideias
e verdades. Tanta gente que se enche de vazios; de intolerância, desrespeito,
abandono, ignorâncias, de não gentilezas e afetos.
Alimentamos
o discurso que sabemos da presença da morte, das suas sondagens, porém, na
prática, não validamos que a vida e morte estão em linha tênue, em
desconstruções, em lacunas diárias. São estes dois hemisférios que podem nos
tornar emblemas, iconoclastas como também
desprezo,dores. Em qual hemisfério temos convertido nossos dias? O que
ficará para que não morremos também nos olhos, nas vidas daqueles que
resistirão a mais dias?
A
morte é a canção do dia que atingirá a cada um de nós. Todos viveremos a
expressão final, a última frase, o ciclo nos confiado no momento que fomos
retirado do “paraíso perdido”. Nossa passagem reside nos encontros e
despedidas, no que nos tornamos e deixamos, nos abraços e nas lágrimas. Não
apequenemos nosso mundo, não endureçamos nossa existência porque o que nos restará
será: Aqui, jaz um homem.
Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato ( 16/06/2016)
quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sal da terra
Seiva bruta
que empodera a terra.
Solo fértil que umidifica a alma.
Água bruta que inebria raízes
e transborda a vertente da esperança.
Chuva crua para o nascimento
das árvores brotadas de belezas solares.
Sob folhas caídas que denunciam o ciclo
e reinventam hemisférios de metáforas.
Do líquido escorrido das águas resgatadas
dissolve a terra seca,
disseca o enraizado,
evoca o imponderável.
Do escorrido, perpetua-se o grito,
antes adormecido.
Inócuo ao barulho do silêncio.
Potente à surdez de todas as palavras.
Os frutos amanhecidos
solidificam o amálgama dos afetos e
determinam a resiliência dos dias.
Nas folhas, solos, frutos
crescem poemas nascidos e mortos.
Poesia espalhada nas sombras nos cheiros
nas noites sem lua,
nas tardes demasiadamente laranjas
e estrelas recém - chegadas.
Nos dias de ventos embebecidos
pelos rios trazidos de passagem,
o ritual das reconstruções,
dos alicerces virginais
parirão homens e outonos.
Os rituais de vida
plantados em motes
de lirismos e poéticas
conceberão raízes vivas e apodrecidas
caule nobre e esguio
sementes e frutos inaugurados.
Seiva fértil que escorre nos corpos
e nas rimas
e encharca
o insondável.
O abismal.
O delírio.
O gozo.
O impreciso.
O sal da terra.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Viva Rubem

Todo
escritor deseja ser lido. Deseja que sua literatura perpasse além do papel e da
grafia e passe a dançar nos olhos e nas almas dos que o leem. Sob esse aspecto,
tracemos uma analogia com a crônica de Rubem Braga, de 1967, intitulada “ Meu
ideal Seria Escrever...” Como toda a obra magistral de Rubem ( deixemos o
sobrenome de lado), esta crônica consegue fotografar a vontade máxima do
escritor, que é ser lido, não falo de admiração em seu sentido de fama, mas o
querer que suas palavras escorreguem no outro.
Tratando-se
de pós- modernidade, vemos que o leitor exerce mais domínio sobre a obra. Esta, por sua vez,
encontra-se mais aberta para que o leitor interfira e consiga penetrar em suas
vertentes mais densas. Como atemporal, Rubem, em diferentes escritos, consegue
com que pensemos a humanidade nas suas maneiras mais óbvias e mais complexas.
Ele consegue extrair dos elementos prosaicos aquilo que nos possibilita
repensar, inaugurar, debater, antever, construir, enfim, em sua escrita, vemos
o sujeito como indivíduo e objeto, principalmente, nestes tempos caóticos.
No
texto já referido, vemos um “querer faminto” em fazer de seu texto uma solução para todos os males, como um
elixir para as problemáticas da vida
humana, fomentando no outro uma mudança de hábito, ou melhor, de vida. Sua
ideia registrada, no texto, parte do desejo de colorir a vida de “uma moça
cinzenta.” E, a partir disso, deseja que os pares sejam mais felizes, que as
pessoas mudem seus comportamentos por conta da sua história e que ela ganhe
mundos; viaje espaços e os corações das gentes. “E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada
de mil maneiras...”, escreveu Rubem.
Novamente, nosso cronista amplia o papel do fazer
literário, dimensionando as suas interpretações e impactos provocados nas vidas
daqueles que o lessem. Ele sabia que ler bons textos literários faz de um mero
sujeito um indivíduo singular, mobilizador e
pensante. E pensar é um verbo de ação tão necessário e relevante quanto
amar. Amar e pensar exalam nosso senso de humanidade, nosso senso de justiça,
de sensibilidade e autonomia.
Rubem, nosso querido escritor, mostrou neste
texto, como em tantos outros, o papel indispensável da literatura na vida dos
homens e seus efeitos benéficos na nossa vida prática. A literatura mostra que
a vida dos horários, dos ônibus lotados, dos momentos de pressa, dos encontros
e desencontros não bastam, pode-se mais. Deve-se mais.
Por meio desta crônica, podemos lançar novos
olhares para o objeto literário, para as literariedades, para o que está além
das palavras, para o não dito e esperado. Rubem torna-se lupa para as visões
atordoadas, arranhadas e envelhecidas. Ele liberta o discurso literário da sua
formalidade rançosa e imóvel, reinventa os alicerces dos personagens, libertando-os
do comum, ao mesmo tempo em que dá novas propriedades ao escritor acerca da sua
obra e seus deslizamentos no leitor.
Ao leitor,
ele dá a chance de acordar de um sono vazio, pobre e de escapismos. Graças a
Rubem, temos a possibilidade de recriar nossos ambientes literários, empoderar,
mais do que nunca, a vida na escrita e revigorar o papel da literatura ( primordial) na sobrevivência
da sociedade.
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