segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A permanência da vida ( poesia)

Sempre quando contemplo a obra surrealista A persistência da memória ( 1931), de Salvador Dali, tenho uma intensa sensação de que estamos, insistentemente, perdendo nossas vidas. Vejo os relógios derretidos no galho seco, na cabeça de um homem e sobre o móvel e remeto-os ao nosso cenário cotidiano, as problemáticas instauradas a partir do danado tempo.
O tempo coordena nossos compromissos e horários, o tempo determina a criação e o extermínio de esperanças e das emoções, o tempo nos liberta ou nos mantém em exílio ou em prisão para que continuemos expiar nossos dilemas. É o tempo que inaugura e mata. E, desta forma, caminhamos entre pontas e frestas da vida.
Mas, isso legitima ainda mais nossas frivolidades e nossas fragilidades. Perdemos tanto a vida quando nos intitulamos melhores que alguém. Perdemos quando apostamos todos os dias em fichas que não valerão a pena. Sabemos das incertezas e da corda bamba e, mesmo assim, deixamos de viver coisas maravilhosas para dar conta dos horários e responsabilidades que, sejamos sinceros, poderiam ser resolvidos em outra hora.
Damos destaque demais aos pincéis que traçam cores frias e aos cenários doentes ao invés de fotografarmos nossos eventos de maior alegria. Ou quem sabe selarmos a poesia de dias melhores, de confetes espalhados por toda a casa. O tempo é impalpável e dinâmico, devendo ser vivido e não consumido.
O que fica são o legado, as lembranças fomentadas e os risos cristalizados nas memórias. Perdemos a vida se nos colocamos incapazes ou acima de qualquer mortal. Perdemos quando destratamos ou ignoramos aquele que nos quer tão bem, quando gastamos tempo com as amarguras costuradas junto ao coração, as quais mudam a cadência de seus batimentos.
Perdemos a vida quando deixamos de olhar com carinho o outro, não demonstrando sensibilidade. Nossos relógios desmancham quando enclausuramos a felicidade e o perdão, quando escorremos só críticas de nossos lábios e não cantamos, com maestria, os elogios. Tão bom ter afeto, ser visto de forma singular, ser amado.
E o que tem feito o relógio escorrer? E o que tem mantido o galho seco? O que fazemos com a breve noção de tempo? Tenho certeza que Chronos ( deus do tempo-mitologia grega) não gostaria que dissolvêssemos o tempo em tantas desimportâncias, em tamanhas canalhices. Não adubemos a arrogância, a prepotência, o desrespeito, a falta do querer bem.

Dali nos ensina que o tempo, comido de forma feroz pelos excessos do cotidiano, é a oportunidade de construir nossa obra suprema, nosso livro mais bonito e mais profundo. Um livro que, lido por muitos, mostrará que não subsistiremos. Persistirá, apenas, a memória do que faremos  com a nossa poesia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Dias 

Vivo sozinha há três dias,
há duas décadas, 
há cinco séculos.
Vivo sozinha por horas 
e mantenho-me na clausura por minutos.
estou sozinha aqui nas paredes deste cenário sem traçados.
A solidão me ampara, 
delineia os espaços do meu corpo
das ausências que brotam aqui.
É ela que me espera nas tardes de Sol baixo, 
nos tempos de cólera, de inflamações.
Ela não me anuncia nem denuncia os percalços
que insistem marcar os pés.
Estou só.
Sozinha trago as partes não enaltecidas,
mofadas nas frestas de uma tarde mal amada de domingo.
Dias ímpares 
Dias pares
Sozinha amanheço 
e permaneço no afiado tempo.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Tecendo-me
 
Por estes dias, tenho estado decepcionada. E como dói nutrir tal sentimento, como massacra tal constatação. Sei que a danação humana faz parte da minha alma, tão encharcada de sentimentos e emoções. Decepcionar-se faz parte de nosso crescimento, faz a gente costurar novos cenários.
Criamos perspectivas em relação ao outro, e esperamos receber aquilo que idealizamos. Mas, a alteridade faz parte da nossa construção. É ela que nos define como sujeito único; cultural, moral e histórico e eleva nossas potencialidades, tão especiais.
Esperar um presente tão desejado e não o receber acalenta nossa frustração, alimenta nosso vazio existencial. E, deste vazio, brotam sensações amargas, que nos envenenam lentamente e desfalecem nossas esperanças.
Muitos irão dizer: ”faz parte da vida”, mas não me atrevo acostumar com o que me acinzenta. Não quero conformar-me com a mesquinhez do homem. Sei, vou descosturando os preceitos idealizados e me aventurando nas realidades construídas nos intervalos dos dias.
Neste contexto, remeto-me à música de Cazuza, O Tempo não Para, continuando “disparar contra o sol”, “correndo contra a direção contrária”. Sabemos das incertezas humanas, mas acreditamos que venceremos as canalhices ( eu continuo acreditando), as apatias emocionais e as ações que subvertem o respeito e o amor.
Ao escrever a letra musicada, Cazuza se encontrava cansado das mentiras, barbaridades, intolerâncias e injustiças. Doente, percebeu doenças maiores no outro; naquele que prefere virar o rosto, julgar, magoar a usar de gentileza e amor supremo. Poeta, Cazuza conseguia extrair as emoções, mesmo petrificadas nas pessoas, e ecoá-las para que pudesse estampar as mudanças imprescindíveis.
Decepções a parte, somos humanos que podemos vislumbrar além da paisagem da frente. Se as decepções doem, elas criam calos e nos tornamos mais fortes e maduros diante dos dilemas que todos os dias batem a nossa porta.
É, sem dúvida, o que nos machuca o responsável por nos garantir a sobrevivência entre as feras, já poetizava Augusto dos Anjos ( Versos Íntimos). E ele estava certo! Em todos os cortes, as cicatrizes prevalecem. Não que eu esteja árdua e triste, pois, legitimamente, não estou.
Estou usando os cortes, as falhas e frestas para tornar a realidade e a razão mais perceptíveis, de fácil acesso em minha vida. Depois das decepções, sobram experiências, reflexões e matéria-prima para conversas das boas, para as costuras cotidianas e, ainda, render excelentes histórias.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A poesia
voou das palavras
repousou no coração
e abraçou- me.
Ela esverdeou as esperanças
e amadureceu alegrias.
Meus jardins floresceram
e a alma extasiou- se.
Os versos adocicaram
as mãos acetinadas
as tardes laranjas
e os tempos da memória.
A poesia tece minha vida.
Simone Lacerda






terça-feira, 28 de junho de 2016

Nossa ferramenta diária


Gosto de abastecer pessoas. Gosto de retribuir com os achados que catei entre mundos e jardins ou que foram conseguidos com muitas lutas. Conhecer é encantador, mas dói, exige enfrentamentos e a retirada das sujeiras da covardia. E, desses enfrentamentos, aparo frestas e quinas e trago para o outro o que ficou de presente.
Acredito que já temos cortes o suficiente para continuar trazendo lanças ou disputas desiguais nas corridas da vida. Desejo poesias de inspirações, de amores que estão amanhecendo, de gente de estrela nos olhos. É por isso que luto diariamente. É nisso que fortifico minha escrita, a forma de me desprender das maldades e ter esperança nutrida.
A leitura e a escrita permitem que não neguemos o mal, porém, que saibamos dialogar com as marés e recondicionar o que nos aflige e nos causa paz. O conhecimento alimenta a fé nas pessoas, a reflexão diária para onde caminhamos diante de um mundo mutável e catastrófico.
Vemos a intolerância, o desrespeito, a maldade, a vingança ganharem cenários. Vemos também atos de altruísmo, de felicidade, de carinho, de gentilezas. E o que pretendemos preservar? Acredito que desejamos permanecer com as flores, mesmo que murchem, que queremos a justiça inflamada nos olhos e nas atitudes e o companheirismo nos abraços coletivos.
Conhecer faz de nós seres singulares, pulsantes, os quais sempre se dispõem a renascer, a se inventar. A palavra deflagra, polemiza, reconstrói, ameniza, dignifica. Ela lança as redes e oferece novos portos, ela aproxima e redesenha os olhares para os invernos, as memórias, as expectativas de um amanhã ensolarado.
Lembro com lindeza de meus autores que utilizaram seu discurso para ferramenta de crítica, instrumento de liberdade, aprimoramento de ideias, recortes de anunciação e dilemas, poesia que ilumina a vida e traz canção para a alma, desenhos de sujeitos, enfim, para que o mundo não se conformasse nem tão pouco o homem se tornasse mecânica de manobras e alienações.
Escrevo para que eu tenha remédios, a fim de que meus cenários não se desbotem e eu consiga ver, bem mais que os olhos me sugerem. A escrita possibilita que meus naufrágios não me superem, que minha morte seja renascimento, que minha fala potencialize minhas crenças e meus espaços tenham poesia para que eu possa me apoiar quando muitas coisas estiverem em desordem.
Então, como presente de inverno, ofereço a minha escrita, a minha poesia diária para que não murchemos nem permaneçamos nos marasmos que o cotidiano nos oferece. Não dissolvamos nossos achados, nossas vontades de ter dias mais encantadores. Conheça, busque muito de si e oferte o que fez de ti este indivíduo tão espetacular. Leia, informe-se, escreva, produza e ressignifique o melhor da humanidade.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Nosso epitáfio






Somos agraciados todos os dias pela vida. Sentimo-nos humanos porque somos capazes de respirar, sentenciar e pensar. Ao longo da nossa história, aprendemos, erramos, superamo-nos, lançamos expectativas, descosturamos perspectivas e damos, novamente, os passos, como um constante costurar e desfazer a linha. Mas, temos como certeza traçada a morte. Dela, não conseguimos nos esquivar, disfarçar seu tom, iludir e desinteressar.
Chega o dia que vamos nos escapar. A vida escorrerá e colocaremos um ponto final na  frase produzida durante o fio da vida por nós. Estamos em um novelo que se consome, todos os dias, e que, um dia, não o teremos. E nisso não há divisão. Se, hoje, vemos a sociedade construída  sobre patamares econômicos, nos quais muitos valem pelos bens financeiros que possuem, a morte é capaz de acabar com todos eles.
É nela que nos mantemos iguais, com todas nossas mazelas e insuficiências. A morte é a resposta da vida. A cobrança pela nossa humanidade. O resultado de uma vida inteira. Não a vejo como punição, mas como a verdade para que não sejamos tão egoístas, prepotentes, vazios, arrogantes e ausentes. Morrer é esvaziar-se de toda nulidade, de toda indiferença, de toda rispidez e mesquinharias.
Ela sustenta as desimportâncias de uma vida vazia, corrupta, triste, individualista. Nela, não há dinheiro, altivez, mentiras, posição social, beleza externa, enfim, nossas misérias que gostamos de ressaltar, de registrar nas ações mais grosseiras, mais inúteis. A morte, não aceita por todos, é a afirmação de toda uma vida. Andamos acelerados, devagar, imprecisos ou certos para que, a qualquer momento, encontremo-la no virar da rua. E de que valeram  os passos? O que deixamos?
São indagações fundamentais para que mudemos a partir de agora, para que reflitamos o que construímos sobre nós, pois será isso que se manterá nos outros, nas memórias, nos exemplos, nas conversas memorativas, nos pensamentos que nos farão resistir. Não mais em carne, mas em lembranças, em legados.
Já dizia a canção ( Nuvem Passageira- Hermes Aquino) que somos nuvens passageiras, somos cristais, que, portando de uma vida delicada, poderá quebrar a um instante. Como somos frágeis, não? E tanta gente cometendo atrocidades, vivendo da enganação alheia, retirando os direitos do seu semelhante, deturpando ideias e verdades. Tanta gente que se enche de vazios; de intolerância, desrespeito, abandono, ignorâncias, de não gentilezas e afetos.
Alimentamos o discurso que sabemos da presença da morte, das suas sondagens, porém, na prática, não validamos que a vida e morte estão em linha tênue, em desconstruções, em lacunas diárias. São estes dois hemisférios que podem nos tornar emblemas, iconoclastas como também  desprezo,dores. Em qual hemisfério temos convertido nossos dias? O que ficará para que não morremos também nos olhos, nas vidas daqueles que resistirão a mais dias?
A morte é a canção do dia que atingirá a cada um de nós. Todos viveremos a expressão final, a última frase, o ciclo nos confiado no momento que fomos retirado do  “paraíso perdido”.  Nossa passagem reside nos encontros e despedidas, no que nos tornamos e deixamos, nos abraços e nas lágrimas. Não apequenemos nosso mundo, não endureçamos nossa existência porque o que nos restará será: Aqui, jaz um homem.

Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato ( 16/06/2016)


quarta-feira, 15 de junho de 2016






Sal da terra


Seiva bruta
que empodera a  terra.
Solo fértil que umidifica a alma.
Água bruta que inebria raízes
e transborda a vertente da esperança.
Chuva crua para o nascimento
das árvores brotadas de  belezas solares.
Sob folhas caídas que denunciam o ciclo
e reinventam hemisférios de metáforas.
Do líquido escorrido das águas resgatadas
dissolve a terra seca,
disseca o enraizado,
evoca o imponderável.
Do escorrido, perpetua-se o grito,
antes adormecido.
Inócuo ao barulho do silêncio.
Potente à surdez de todas as palavras.
Os frutos amanhecidos
solidificam o amálgama dos afetos e
determinam a resiliência dos dias.
Nas folhas, solos, frutos
crescem poemas nascidos e mortos.
Poesia espalhada nas sombras nos cheiros
nas noites sem lua,
nas tardes demasiadamente laranjas
e estrelas recém - chegadas.
Nos dias de ventos embebecidos
pelos rios trazidos de passagem,
o ritual das reconstruções,
dos alicerces virginais
parirão  homens e outonos.
Os rituais de vida
plantados em motes
de lirismos e poéticas
conceberão raízes vivas e apodrecidas
caule nobre e esguio
sementes e frutos inaugurados.
Seiva fértil que escorre nos corpos
e nas rimas
e encharca
o insondável.
 O abismal.
O delírio.
O gozo.
O impreciso.
O sal da terra.