quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Potes de Ouro


Queria começar este texto parabenizando-nos por mais um começo de ano. É...conseguimos chegar até aqui. E olha que sofremos bastante nesta viagem; naufrágios, marés altas, apegos e arrependimentos, mas conseguimos um porto. Parabenizo a nós também por toda nossa capacidade de superação mesmo, pois, achando que não conseguiríamos abrir a porta ou subir as escadas do porão, chegamos à entrada principal e pudemos, como nas festas, recebermos os nossos convidados e, enfim, sermos bons anfitriões.
Não é fácil superar. E sentencio essa palavra como peça-chave para iniciarmos nosso ano. Superamo-nos todos os dias quando nos dispomos acordar e lançar novas possibilidades. Quando realmente desejamos e nos enveredamos por novos caminhos, novas passagens. Superamo-nos quando acreditamos de novo que podemos amar,  entregar-nos e deixar a brisa correr por nossa janela. Superamo-nos quando queremos o novo e investimos nisso nosso tempo, nosso esforço e nossa fé.
Reavaliar-se não é tarefa feita apressadamente. Nem tão pouco uma ação desavisada,  feita” nas coxas”, sem analisarmos vertentes e diagonais. São necessários morrer muitas coisas , enterrar destroços para que o navio parta, siga a viagem prevista. É indispensável subverter o passado ou o que nele te contamina e  entope as veias. Sem desprendimentos, não há superação. Não há urbanização das estradas de chão, não há construção de casas ou sua possível reforma. Enfim, meu querido leitor, não há a produção da vivência humana.
Somos humanos porque somos capazes de nos apresentar no hoje melhor que no ontem. E, por tudo, somos superáveis para amanhã. Sem reinvenção, não há criatividade e ciência. Sem novas envergaduras, o sujeito definhe-se, agoniza e passa a ter doenças inflamatórias e crônicas na alma. É, somos um ser sempre no acabamento. E, nisto, vejo nossa riqueza, nossos potes de ouro. Sim... temos milhares deles em nós. E só vemos isso quando nos superamos, quando sentenciamos que não há uma única sentença, uma única escrita.
Então, leitores, vivemos, apaixonemos pelas nossas possibilidades, pelo ”refazimento”, pelo nosso mundo que ora declina ora se ergue. Nessa linha, a história já nos conta: os povos, poderes e governos também são superados; e outros se inventam no lugar. Temos história, literatura, artes, etc., porque nos superamos, recriamos espaços e culturas. Claro que somos frutos de solidificações, bases construídas, porém, nossa humanidade é fruto de várias árvores, raízes, chuvas, ventos e sóis.
Espero que, neste ano, você e eu consigamos nos superar e contaminar outros com nossas reescrituras. Comece fazendo coisas adormecidas ou jamais mexidas, como ler, passear e conhecer lugares com quem se quer por perto, rir mais alto, fazer cafuné, ouvir boas músicas, conhecer a história de sua cidade e país, acreditar mais em si. Sem dúvida, aumentará seus potes de ouro, que dimensionará ainda mais seu brilho.

  
* texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato - 09 de Janeiro de 2015

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Presente de Natal
Vivemos épocas de festas. Festas que deveriam cobrir nossas almas de sentimentos de agradecimentos e reflexões. Uma festa de reunião, esperanças e gratidões. Todavia, vejo faltarem o renascimento e a reinvenção do afeto. Fico bastante apreensiva e abismada com as criações de felicidade inventadas pelo dinheiro e seus odores de consumo.
Sinto que acabamos mergulhando em águas rasas de deveres de compras, de sorrisos irreais e de uma pseudo forma de agrado. Vemos pernas e braços abastados de sacolas cheios de produtos e objetos, compondo passos e espaços a fim de que nada- ou quase- falte para o momento natalino. Embora os braços lotados e as pernas apressadas, sinto que faltam  muitos caminhos para percorrer, sinto que as sacolas camuflam vazios e ausências que continuam pernoitando em muitos de nós.
Há conversas na cidade, barulho de buzinas, gentes estressadas. Uma corrida para um objetivo não alimentado por presentes. Isso me faz rememorar caminhos bíblicos, os quais nos deixam bem claro que não precisa palácio se existe a manjedoura. O Rei refutou a riqueza e preferiu se cobrir de simplicidade e, mais tarde, de sabedoria. E o que aconteceu conosco?
Esquecemos-nos da sabedoria e nos cobrimos de prestações e de gastos para que acreditemos na superficialidade, no desejo e nos afetos comprados, como se só vivêssemos a experiência do Natal com um sorriso criado, um presente comprado pelo vil metal e muita comida, a ponto de comermos mais do que realmente”cabe na barriga”.
Percebo que lamentamos pela frieza humana, pelas grosserias, pelas banalidades e barbáries, mas achamos que podemos comprar esperanças e renovações em uma volta pelo shopping e pelos embates da rua lotada de seres que também viraram a página dos significados da data próxima. Às vezes, sinto-me tosca por também me aproximar desta sensação do consumo, que, por ora, ameniza nossos desamparos e nossas frustrações, mas traz à tona o “monstro adormecido”: aquilo que não conseguimos afastar, aquilo que nos calcifica e nos torna menores.
Sem dúvida, o Natal ficou como coadjuvante. Compramos pacotes, embrulhos, porém, sonhos, aconchego, afeto são artigos de luxo, sem chance de promoções ou parcelas nos cartões de crédito. Fé, família, felicidade são preciosidades jamais encontradas em anúncios de TV ou em publicidade de internet. Humanidade, amor, solidariedade não estão em vitrines nem tão poucos nas sacolas carregadas.
E isso não pode ser renunciado. Não se podem negociar afagos e palavras benditas por aquele vestido ou quem sabe por aquele objeto tão querido porque foi mostrado em um canal de compras. Dessa forma, a humanidade se barateia, se coloca na superfície de tantas profundidades que ainda potencializam em nós. Nesses desenhos de consumismos, iludimo-nos e “despoetizamos” os sentimentos advindos nesta época. Deixamos vencer a aspereza, a insensibilidade e morremos um pouco mais.
O homem precioso, neste contexto, não renasce, não floresce, como uma planta que tentamos enraizar e, por mais que tentemos, não vinga,  como já dizia minha amada mãe. E, se continuarmos acreditar que o cansaço das compras, o desgaste das idas e vindas nos comércios são as atitudes mais indispensáveis, é sinal  que já nos vendemos há muito tempo e não teremos tempo para as singelezas de um tempo tão bonito. Um tempo marcado pela manjedoura, pela estrebaria, pelo choro de uma criança nascida em Belém, pela riqueza imensurável de um Rei.
Sejamos, então, anunciadores e precursores de um Natal diário, no qual haja agradecimento, simplicidade, paz, harmonia, justiça e alimentos de esperança. Sejamos nós o Natal que aproxima as pessoas pelo afeto, pelo toque, pelo sorriso, não pelas compras nem sempre necessárias e que encarecem ainda mais nosso desejo de um cenário iluminado pela alegria de um mundo melhor e não, simplesmente, pelos enfeites natalinos que clareiam as noites de nossa cidade.

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Arame Farpado
Sempre me percebi espreitando as coisas. Nunca consegui me enquadrar em sistemas, mas não acho danação ser assim.  Constantemente, me vejo às margens, na beira mesmo, tentando dali observar meus espaços por outro lado. Identifico-me com Drummond e me desenho “gauche” na vida, nas estradas que construo e mesmo derrubo, nas pontes e vielas que refaço pra mim. Não me vejo enquadrada nos discursos e nos ecos impostos pelos outros. Vago, sorrateiramente, entre desníveis e nas impossibilidades e, ali, reinvento minha não existente forma de ser feliz .
Mastigo novos desejos e ordens que não sentencio, invado cenários não feitos para mim e consigo dissimular receios e medos que se misturam nas minhas vestes de humanidade. Vagueio nas beiras de caminho e não recrimino outras verdades. Nem procuro me moldar nos potes e rótulos que inventaram e acharam que me coubessem. Não sou sólida, deslizo demais e desconsidero ser uma mesma mulher todos os dias.
Gosto de experimentos, de sentimentos inaugurados em meu corpo e novos braços e pernas. Espero beijos mesmo sem perdões e sei que sou desajustada, carente de muitas coisas, que sei não serem saciadas. Não costumo marcar territórios, nem tão poucos escutar a mesma música . São nos desvãos que tento passar, correr sei lá... e dizer o não dito, traçar o que nem idealizado foi. Sou do acostamento, becos e não estradas. Quero sugerir e não delimitar. Os limites empobrecem as vontades e sou consumista mesmo...
  Entre frestas e nesgas, traduzo meus recados e inundo meus hemisférios. Gosto de dizer quando há o silêncio, quando palavras cansaram de ser gotejadas. Às vezes, cuspí-las é necessário. Não suporto ouvir os mesmos vocabulários e as reticências não denunciadas.
Sou oscilante e variável. Não tenho a solução, mas costumo criar muitas perguntas. É chato não ter incertezas, é entediante não mergulhar. E nisso estou em me especializando. Gosto de sentar no chão. Cadeiras e sofás me deixam confortável demais. E, no desconforto, lanço-me centenas de vezes, todos os dias.

Sou desajeitada, não caibo em muitas roupas, em modas e em muitas gentes. Mas, me intensifico com outras, com olhares que se espalham. Gosto de visitar muitas casas, de ter mais endereços e aproximar-me, embora me afaste com frequência. Gosto de andar na contramão, entre lacunas e arames farpados, entre o que não considero e o que considero improvável.
* Texto publicado na Revista Cachoeiro Cult- ano IX- N°49- Dezembro de 2014.
Entre cinzas e cores

Sabe quando você se vê pensando em situações que não te trouxeram arco-íris nem foram capazes de perfumar seu jardim? Pois é, neste fim de ciclo, de ano, me desenhei neste contexto, tentando não deixar que ilusões esquecidas do lado de fora da casa ou pacotes que já despachei para o lixo pudessem me trazer qualquer cheiro ruim  ou  fossem colocados novamente em minha varanda por algum desavisado,pois, de propósito, tinha deixado escapar para à frente da casa.
Nos últimos dias, estou discursando, sob a ótica de Clarice Lispector e Hilda Hilst, encontrando-me taciturna, noturna, nebulosa demais. Mas, costumo, neste espaço ermo, dá uma reviravolta e ressignificar meu papel na existência. E sei que o caro leitor tem essas passagens também, talvez não na mesma dosagem, nem na mesma cor, porém, sei que é comum aos seres se reverem de vez em quando.
Pensei subidas onde não havia rastros  ( Hilda Hilst- Dos Desejos). É assim que me significo muitas vezes, em uma tentativa de reinventar esperanças e estratégias de alegrias. Se o sujeito não considerar o que ainda não é escrito, seremos incapazes de traçar perspectivas de uma possível felicidade. O que seria de nós sem uma idealização de um tempo ameno, de uma vida com menos espinhos aparentes?
Neste tempo de construção de uma nova ordem e de arrumação de gavetas, trouxe para perto angústias e dores como forma de dissipá-las de vez, sem tempo para que raízes e cicatrizes deem sinais de uma boa vinda e queiram se aprumar. Sempre temos medos escondidos em sótãos e cômodos, sempre damos alimento para dúvidas de plenitude. E costuramos, nessa linha, uma noção fina de humanidade, de ano novo, de vida nova.
Estou tentando soltar costuras de roupas usadas e envelhecidas em meu armário. Quem sabe aproveito os panos para dar brilho nos móveis, limpar o chão. Neste momento, sei que não cabem em mim, estou com um corpo com outros contornos, valorizando partes que essas roupas escondiam ou me enfeiavam. Não desejo me perder, pois seria difícil o planejamento em tempo hábil de um novo edifício, uma nova casa.
Nossas dores, leitor, revelam, na verdade, o indivíduo que emancipamos em nós. Elas demarcam as áreas de conflito, os terrenos minados, desertos, e, o melhor, as áreas de plantação. O solo apropriado para que consigamos plantar, trazer sementes e ver o crescimento do que foi cultivado. Não quero revigorar sofrimentos nem tão pouco dar ouvidos às angústias que caminham perto de nós. Todavia, sou o que vejo no espelho, nas construções da alma, graças a tudo que me fez gargalhar e inflamar também.
Desejo ser coração batendo no mundo, como alinha minha saudosa Clarice, desviando-me , quando necessário, do que traz insensatez e tristeza. Embora, elas alimentem minha sempre vontade de ser feliz e o não desejo de vê-las tocando a campanhia de minha casa. Nem a sua, leitor.
Nesses tempos de revisitação, para que haja um novo ciclo, novas perspectivas, considero a retirada das roupas velhas do armário e dos papéis sem mais utilidade. Considero a retirada de objetos que só servem para armazenar poeiras e não causam mais o efeito decorativo desejado. Dessa forma, quero desconsiderar, como importantes, sensações e assombramentos que, por motivos diversos, habitaram meus cômodos e meu quarto por algum tempo. Sei que foram tintas e desenhos necessários para meu quadro. No momento, desintegram-se das minhas necessidades; construção de pontes que me levarão para a outra margem do rio.

“Não sei perder minha vida” ( Clarice Lispector). Esta é a sentença para que inauguremos um ano bom, com vivacidade, frescor e leveza. Não aceitemos perder nossas vidas, mesmo que situações aparentem intransponíveis e sem acesso às novas fronteiras. Desejo que vencemos as dores causadas pela existência e que sensações cobertas de cor cinza sejam uma das cores que pincele sua colorida e alegre obra de arte. Querido leitor: Não perca sua vida!

* Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato- 12 de dezembro de 2014.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Milagres Cotidianos

Vez ou outra me pego contemplando as pequenas coisas. São situações minúsculas marginalizadas pela aridez diária. Consideramos milagres, fenômenos aquilo que saltam aos nossos olhos, mas acredito no milagre que perpassa nossos olhares e nem nos damos conta. 
Somos frágeis ou altivos demais para significar pétalas ou folhas caídas, para dar sentidos inaugurais àquele sorriso sem graça, àquele toque sem querer, mas que traz carinho, àquela hora de conversas rememoráveis que nos aproximam de um passado, recente ou remoto, gostoso de costurar.
Ao retornar à poética de Manoel de Barros, até por conta de sua morte e as postagens de seus textos nas redes sociais e sites, dei-me conta, ou a perdi, de como é necessário nos determos nas coisas insignificantes, nos pedaços indeterminados, nos gestos abandonados e nas palavras inconstantes que deixamos esvaziar.
Sempre gostei de viajar nas palavras e enveredar pelos significados não determinados, sempre preferi a viagem das palavras a qualquer outra viagem, rememorando Manoel de Barros. E este visitou-as com a mais rica simplicidade, reinaugurando quintais ao invés de cidades, gente ao invés de sociedades, mundos singelos ao invés de prédios, carros e trânsitos. “ Prezo insetos mais que aviões”( O Apanhador de Desperdícios) é um verso que me visita sempre. Li este poema há muitos anos e, ora ou outra, me sobressalta, embala meus pensamentos quanto à valorização das (des) importâncias.
Determinamos ser felizes nas grandes situações, nos planos mirabolantes, porém, aprendi que meu bálsamo está na inutilidade, nas coisas simples, nos vazios não preenchidos pelas ambições mesquinhas, pelas ganâncias assassinas, pelos desejos comprados nos shoppings e à custa de muitos cortes.
Para Manoel de Barros, “poderoso “ é aquele que descobre as insignificâncias (Tratado geral das grandezas do ínfimo). E disso quero me abastar, encher minhas economias. E, assim, vencer o cansaço das coisas difíceis. Universos, de tão grandes  e finos, perecem cedo demais. Quero ter o privilégio de ser abraçada pelo Sol, rechear meu corpo no vento e ter verdades para agradecer. 
Desejo para você, meu nobre leitor, o menor dos espaços para que ali você  veja a grandiosidade da vida. Nada de se entregar demais às tarefas que te distanciam das belezas nas miudezas. Seja agradecido pelo irrelevante diário, daquele não noticiado pelos jornais, pelas revistas e televisão.
Espero que aprendamos nos desprender dos nós e gaiolas que nos sufocam, gotejam nosso ar e nossas emoções. Sejamos mais afetuosos nas palavras, com os humanos e menos precisos e consumistas de sentimentos que nos danificam, nos dão a sensação de que nunca conseguimos ter o “dever cumprido”.
Quero ter a intimidade com o indivisível, o imponderável, com os abraços não ditos, o beijo molhado e doce, a frase bendita dita . Quero ter a graciosidade do menino que solta pipa e se sente o mais feliz das gentes, dos experientes contando casos de uma juventude cheia de peripécias. Desejo a mansidão das singelezas e o turbilhão dos pequenos insetos e a habilidade de seus pousos. Não quero acordar atrasada de um tempo que corre à frente dos relógios, mas quero o desconstruído, o desenfreado e o devagarzinho. Mais que tudo, desejo ter que agradecer todos os dias pelas pequenas coisas que me aproximam mais das pessoas e de mim mesmo.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A ARTE que salva

“Quem faz um poema salva um afogado”, verso de Mário Quintana, poetiza, lindamente, o grande papel da arte na formação do sujeito e na capacidade de nos impactar. Como leitora visceral e uma apreciadora das artes, não conseguiria conceber um mundo sem a presença de objetos artísticos.
O cotidiano, muitas vezes, nos torna mecânicos e ressequidos, acrescentando em nossas vivências cascas, orifícios e calos de banalidades, desesperanças e desapegos. Mas, a arte nos sugere o contrário: um novo contato com o real, uma nova forma de reinaugurar verdades.
Como não repensar aspectos do psíquico humano sem as obras do magistral surrealista Salvador Dali, como não se estranhar com os novos traçados de figuras e objetos a partir da visão cubista de Picasso, como não se indignar e ressignificar aspectos da sociedade por meio de Machado de Assis e como não ampliar questões da linguagem, do psicológico e da mundividência através de Clarice Lispector?
A arte é que amplia nossa visão de humanidade, nos retirando do senso comum. Ela nos dá a oportunidade de inventariar novos aspectos da tão “dolorida” vida humana, recriando significados de liberdade, justiça, beleza, refinamento estético. Para se livrar do caos e da danação há necessidade da arte.
As diferentes formas de concepção de arte minimizam a ausência presente no indivíduo, ampliando seu olhar para o mundo, para os homens e nos fazem comungar com as emoções, com sensações inauguradas. É a arte que redesenha o imponderável, o impossível, o desconhecido, o inconsolável. Entre percalços e escuros, ela torna-se a lâmpada dos sonhos, a responsável por incitar, assustar, incomodar, filtrar, o grito que, por tanto tempo, manteve-se emudecido e intacto em nós.
Não conseguiria resistir sem arte, sem as letras e melodias de Jobim e  Buarque, como tantos outros poetas e músicos que nos retiram do comum e nos conduzem a novos cenários, a salas e sótãos esquecidos, a dimensões até então não encontradas.  A arte proporciona o encontro, a descoberta, o impensável, e, ressignificando Cruz e Souza ( Cavador do Infinito), ela é a eterna busca do sonhos, dos insondáveis, daquilo que a realidade “crua e nua” não é capaz de nos devolver ou emoldurar.
Considero a arte a responsável pela janela quando me falta ar, quando as palavras calam, quando me sinto pesada ou dura demais. É a arte que me livra das “mortes” e me permite ressuscitar muitas vezes, costurando meus remendos e traçando novas dimensões para minha essência.
A arte nos liberta das escuridões cotidianas, resgatando-nos do abismo, dos medos, do silêncio. Ela é a reinvenção das possibilidades, aproximando-nos do que nos torna mais humanos e amenizando nosso caos. É a arte que nos permite, parafraseando Quintana, vir à tona de todos os naufrágios.









Nos Desvãos da Pós- Modernidade


Nunca se produziu tantas informações no mundo como nos últimos anos. Mas, nunca vimos uma anestesia intelectual como agora. Há uma repetição de modas e costumes, de pensamentos e discursos, costurados em tecidos baratos e desgastados.
Ao ligar a TV, damos de cara com os rostos montados, em corpos moldurados em academias e dietas, que apresentam as mesmas falas alinhadas a uma vida hedonista. São cascas de frutos nada comestíveis. Triste também saber que as músicas mais vendidas evidenciam um cenário “perigoso” e superficial demais, tratando, muitas vezes,  o amor e a mulher como mercadorias de supermercado e promoções de shopping.
Nossos jovens, possíveis leitores, preferem passar seus dias postando em redes sociais suas ideias mal alinhadas em uma língua distante do que poderia se conceber como a língua portuguesa, tão amada por Pessoa, Drummond, Lispector, Adélia e companhia. Não sou contra o “internetês”, que fique claro, mas a favor de um discurso eficiente.
Nas escolas, identificamos um desgaste intelectual. Os alunos ditam palavras, sem saber lê-las. Não reinventam discursos nem inauguram opiniões acerca de um tema, uma situação-problema tão presente em seu cotidiano. Não conseguem significar o que acabaram de “ler”, em contrapartida, repetem, com veemência, o refrão de uma música que, olhe lá, tem dois versos e uma rima  “coração com paixão”.
Quando navegam neste imensurável  mundo virtual, olhando diferentes discursos, não conseguem emitir uma opinião concreta sobre aquilo que viram; se perdem entre figuras de corpos sarados , “posts” sem coesão e coerência, que remetem a  um marasmo intelectual ou à  felicidade comprada em revista.
Nesta complexa pós- modernidade, há uma busca pelo imediatismo, pelo novo que não pode envelhecer, pela ausência de confronto, pela ausência de profundidade. As notícias disseminam-se, em milésimos de segundos, e, muitos de nós, não sabemos o que fazer com elas.
Não se consegue dialogar com as manchetes e  os artigos, nem tão pouco asfaltar essa via de acesso entre a informação e o conhecimento. Parece-me que, queira eu não estar tão certa assim, embarcamos em um navio, com um mar calmo ,embora profundo, sem estarmos certo da direção e sem sabermos utilizar os instrumentos necessários caso haja uma tempestade, uma fúria do mar.
Pensar exige confronto com o desconhecido, com o imponderável, com o que está bem mais à frente do que os olhos podem ver. É reinaugurar alicerces  e reinventar linhas de acesso, caminhos entre o que é dito e significado.
E significar, neste período de tanta banalidade, torna-se ato corajoso. Fugir da mesmice e construir olhares, pois muitos costumam ver da mesma janela, tornam-se o desafio mais prazeroso que podemos experimentar.  Uma boa música, um bom texto, um discurso com propriedade revelam faces do melhor que podemos ser “porque a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.”*
*verso retirado do poema Reinvenção, de Cecília Meireles.