sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Hoje, queria ter asas...e que elas me levassem para bem alto e não me permitissem

 parar...hoje, queria subir a mais frondosa e alta árvore e lá permanecer, por tempo

indeterminado. Hoje, não consegui me conter e me aniquilar...tive que me derramar. Hoje,

 tentei construir palavras, mas todas se afastaram ...e decidi me emudecer. Queria tanto ter

 acordado com a alegria estampada e ter inventado a melhor roupa...e permaneci ausente.

 Tenho sofrido de inconstâncias e sei que não sou equacionada por isso. Há pessoas

 demais para serem compreendidas e não estou tendo talento para teorias. Desvio- me da

 mediocridade e, às vezes, componho- me chata e óbvia demais. Sei que tenho dores e os

 remédios não surtiram muito bem na minha alma. Estou sensível, cheia de invencionices e

 com a casca fina. Detesto ser óbvia, mas, em momentos, quero que leem minhas 

lembranças e emoções. Teologo com a razão, porém, meu espírito vence. Sou dadas a 

sandices e ao amor. Acredito que haverá um amanhecer maravilhoso e terei palavras

 doces, mesmo lendo Machado diariamente. Quero ter contornos e não reverenciar minhas 

canalhices. Sei que, hoje, estou brega, mas me imagino constantemente abraçada e que 

receberei, sem previsão, uma carta, um e-mail, flores, sei lá. Acredito que sorrisos, bom 

gosto e cartões, além de muito carinho, é claro, serão sempre bem- vindos. 


( em uma ebulição de pensamentos... desculpem os agouros)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015


Posso te dar esta rosa?

“Sempre sustentava a mania de ser solidário. Era capaz de estremecer se vislumbrasse um peso demasiado nos olhares do próximo. Dobrava a esquina e sorria como se não fosse a última vez, mas trazia nos dentes  um gosto doce, desejando para quem sorrisse o desejo fantástico que fosse colado o sorriso na boca do outro .” Sinceramente, adoro ver meu sorriso colado na boca do outro, adoro ver quando alguém se dispõe, sem pretensão de holofote,  ajudar o que é igual e diferente.

Solidariedade, de origem francesa, solidarité, remete para o significado de responsabilidade recíproca. Temos, então, um compromisso fantástico em fazer e provocar o bem no outro. E como poetizou Murilo Mendes, somos ligados pela herança do espírito e do sangue àqueles construídos à minha imagem e semelhança. (poema Solidariedade). Somos parte do outro, logo, precisamos envolvê- lo no abraço da alegria, do cuidar e querer, enfim, do encantamento em se colocar em seu lugar e oferecer-lhe a mão, talvez calejada ou macia, para que haja a amenidade da dor.

Esta semana, pude ver isso nas mulheres cachoeirenses ao realizarem um importante evento para que aqueles que não desfrutaram de oportunidades melhores sejam, verdadeiramente, presenteados com esperanças. São mulheres que me encantaram e produziram emoções em quão importante nos tornamos quando escapamos de nosso mundo e nos damos para que a solidariedade exista e finque raízes.

É urgente que fujamos do vazio comum e alavanquemos nossa melhor porção: solidarizar. Resgatar o melhor que somos, pois o ser humano nasceu para ser bom e para oportunizar, ao tão próximo e longe, as mesmas sensações, os mesmos sentimentos e a mesma poesia. Não deixemos que o individualismo, tão árduo e cruel, potencializado nesta pós-modernidade, invista em nós.
Sejamos humanos, pois bem sabemos que nossa vida é ligada aos dos outros   ( Murilo Mendes), que nosso discurso só ganha potência porque alguém nos lê, nos ouve e nos dignifica e que só temos alegria porque alguém, sabiamente, provocou-a e não nos permitiu a lástima. Sejamos, portanto, amparo para quem precisa caminhar e o olhar vivificado para quem necessita ver além das frestas e das lacunas deixadas nas paredes e nos desafetos.
Quero, humildemente, agradecer a todos que me leem e se agraciam com a escrita. Quero agradecer as mulheres que vi disporem do seu tempo e dos seus talentos para que seja feito mais pelos nossos irmãos . Desejo agradecer a todos que acreditam no ser humano, visto que ser solidário não é somente dissipar a fome de comida, vestir quem tem frio, é também ampliar horizontes de outros, é iluminar a capacidade do seu semelhante e torná-lo solar. Sem dúvida, ser solidário é oferecer rosas e poesia para quem estava anoitecido e sedento de vida. 

    

Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato- 17/08/2015

Alma desnuda
Tenho vivido, nestes dias, um embate gigantesco com os mandos e desmandos da humanidade. Sempre fui de me apegar às  palavras alheias, dando crédito a quem, nem por uma nesga, sonhava ser, futuramente, meu devedor. E lembrei por demais do poema de Augusto dos Anjos: Versos Íntimos. Seus textos me achocalham em relação às questões mais brandas e  cortantes.
E vejo, realmente, que estamos habitando uma terra de miseráveis, desenhando-nos, em fortes traços, como fera também para que consigamos manter nosso espírito de sobrevivência. E como precisamos! Infelizmente, em algumas cadências, temos que sentenciar o mesmo troco, igual medida para que sejamos escutados. Não falo de vingança, pois não tenho espírito de sangue nos olhos, nem acumulo peso desmedido sobre minhas costas.
Mas, sofremos embates, desordens e sentimentos camuflados que, quando menos se aguardam, mostram suas camadas. E, aí, raríssimo leitor, não conseguimos escapar da danada ingratidão e sua parente frustração. Delas, tomamos goles e embriagamo-nos com um gosto amargo, que desce à garganta latejando e corrompendo veias.
Como sou augustiana, acredito que “ a verdade virá das pedras mortas/ e o homem compreenderá todas as portas/ que ele ainda tem de abrir para o Infinito”( Ultima Visio). Sob esta ótica, sinto que a dor colaborará para que emancipemos e vençamos toda árvore de desencantamento. Augusto, em sua poética, revela a raiz maldita que vigora em nosso mundo. Revela, da forma mais realista, os vieses que sustentam os lados do homem: sombrio e solar.
E, nesse corpo sombrio, que me percebi frustrada . Inaugurei meus dias com gosto de amargo na boca, logo eu que amo ter paladar doce. Vi que, por um extenso tempo, a Ingratidão foi amiga, parafraseando Augusto. E, desta conversa, não colhi frutos apetitosos. No entanto, foi- e tem sido- tempo de reconstruir novas paisagens, com objetos e mobílias novas e requintadas.
Não quero usar de pedras para combater este mal. Não quero provocar o sangue nem entupir artérias. Nem tão pouco causar danos ao meu cérebro e meu estimado coração. Não, sinto falar, não é tarefa realizada de cor, leva tempo para que eu me sinta aprovada e consiga reverter a estupidez porque nos alimentar das misérias humanas, das comidas dos abutres nos tornará cascas demais.
E desejo para nós fruto suculento, com polpa doce. Comungo com você cheiros de comida gostosa e banquetes de partilha, com mesa farta, música boa e companhias de verdade. Acreditem, essa bebida amarga  me fará mais forte e serena. Negarei até o fim minha descrença no meu semelhante. Não continuarei escrever nosso legado de miséria. A ingratidão, tão presente na humanidade, não nos afastará do nosso direito, registrado em ata, cartório e poesia, de olhar no outro a nossa alegria.     

 



O trágico e a estrela

“Vivendo e aprendendo a jogar/nem sempre ganhando/nem sempre perdendo/mas aprendendo a jogar”(Guilherme Arantes) música interpretada, impecavelmente ,pela  musa Elis Regina costuma inundar meus pensamentos quando me sinto pensando sobre como nós, seres humanos, somos plastificáveis. Temos uma capacidade de nos reinventar sempre que a maré investe contrário, sempre que nosso livro precisa de edições e capítulos.
Esta semana, conversando com uma personagem real, dessas que habitam nossas ruas, ouvindo trechos de sua história com caracteres de superação, percebi, talvez com mais tinta, como somos seres passíveis de tanta coisa. E a letra musicada ecoou em meus ouvidos, mais ainda, nas camadas da minha alma.
A superação vence a covardia e o conformismo. Ela grita que nossa plasticidade inaugura projetos e construções. A gente, destemidamente, vai aprendendo a jogar, colocar as cartas na mesa e onde mais puder. Aprendemos que subir nas árvores não é tão mirabolante e difícil, e criar raízes basta dedicação nos ajustes da terra e das regadas.
Somos trágicos por natureza e isso não pode cristalizar a nossa maior vontade. Estar acima um pouco de você mesmo lhe oferece a chance de ver um pouco ou muito melhor. E, com a visão apurada, o enfrentamento com o invisível e o imponderável é mais fácil. Acrescentamos a isso, experiência, que transforma qualquer um de nós em exclusividade.
Superar-se faz de todos um indivíduo e possuidor de um legado insubstituível. E é o legado, digo aos meus inestimáveis discentes, que nos tornam  únicos e duradouros, visto que a vida é curta. Nesse legado,  pluralizamos nossa palavra e existência.
Não pretendo comercializar a palavra superação, como muito se vende em anúncios de TV e programas de auditório. Considero-a, nestas linhas, como motivo de reflexão, haja vista ser um dos grandes “milagres humanos”. Busco-a como ferramenta para se desbravar o que  vive à espera em nós. Revigoro-a como fruto esquecido ou de tanto tirado do pé, sem esperar o tempo, encontra-se ao acaso.
 Neste jogo, nem sempre transparente, que é vida, é preciso tornar-se funcional e invencível, pois, sem ares de superação, inspirar se torna insustentável. Então, que arregacemos as estimadas mangas e destronemos a passividade e todo compromisso com o neutro e o nulo. Superar requer compreender o trágico como parte da construção da ordem, pois o caos nos ajuda a gerar a estrela, já dizia Nietzsche. Muito sábio, não?

 


Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato

sábado, 8 de agosto de 2015



Quero rodopiar, dançar feito bailarina, ganhar asas como aquele pássaro que atravessou minha janela, quero mergulhar até a crosta, quero sentir até a última gota, quero gritar até que falte fôlego, desejo a esperança mais sem cabimento, inconforma- me enquanto necessário, abraçar até que se sonhe o último sonho. Desejo a esperança sem pé nem cabeça, a fé desencontrada dos sermões, quero a felicidade que aos poucos vem sendo inventada. Alinho minha vida na tal crença que o impossível é logo ali. Estou chegando...


sexta-feira, 31 de julho de 2015

PALAVRA ACESA


“ Tinha desejos incontroláveis de riscar o papel, latejavam seus pulsos para que a sua voz contaminasse a escrita. Serenavam verdades e as palavras amaciavam suas ideias...”. Dia 25 de Julho é o dia do escritor, mas considero todos os dias como o dia daquele que precisa sentenciar toda a sordidez e beleza humana por meio das palavras, transformando significante em significados (Saussure),  sonhos em possibilidades.
O escritor é aquele que se coloca como o porta-voz do imponderável, daquilo que deve ser dito, porém, por muitas vezes, é enviado para os subterfúgios. É capaz de desnudar o que se coloca diante de nós, mas que negligenciamos. Ele é o precursor das certezas e indagações que precisamos conhecer. Sem o escritor, não há registro, não há aspirações. E sem as vontades e os sonhos, morremos entre as cinzas e os vácuos que nos contaminam todos os dias.
Como sujeitos, colocamo-nos à beira do precipício, vivendo a dicotomia da liberdade e do conformismo. E é a escrita que amacia, costura e ao mesmo tempo corta nossa pele bem no profundo para que a dor nos faça reinventariar anseios e o embate. Não há mudança sem palavras, sem a evocação de discurso.
É a palavra que possibilita o voo, possibilita que cavemos o infinito. É o escritor que inunda o caos tão necessário para que deixemos o repouso e a anestesia, injetados várias vezes em nossa alma, para que anunciemos homens dispostos a pensar. Homens dispostos a vencer a danação humana e que se tornem famintos. Uma fome que, de modo algum, deve ser saciada.
Escrevo porque tenho uma fome que não passa. E, por conta dela, desejo que o outro não se sacie. Desejo que o outro se contamine e que, para isso, não haja cura. Escrevo para que o outro tenha sorrisos, mas saiba o porquê das gargalhadas, desejo que o semelhante tenha poesias nos olhos, invisto para que você tenha grito e não renuncie a voz. Escrevo para que a vida ganhe sossego e que nossos pensamentos tenham desordens, pois eles alimentarão mudanças.
Não quero que você seja lampejo, que tenha luz branda e passageira. Desejo que entre em brasa, erupção incessante. A escrita queima, evoca e emancipa. É o devaneio das realidades; a certeza das problematizações. O escritor é o ourives das joias mais raras, das belezas jamais inauguradas, dos hemisférios jamais indagados.

Ser escritor é ter a lâmpada para o que ainda encontra-se adormecido, escuso, preso, empoeirado. É ele que não deixará que renunciemos as nossas quimeras, é ele que trará o carvão para que mantemos a fogueira em meio a tantos invernos. O escritor é a poesia de um dia melhor, pois é a escrita que revigora,  abastece e acende nossa alma. 

Ausente pós-moderno


Naquela segunda- feira, como era rotina, subiu as escadas para adentrar o local tão somente, antes, imaginado. Ali, gostaria de ouvir os melhores verbos e as expressões mais doces. Fazia questão de se apresentar o mais lindo possível para o encontro tão detalhado minutos antes.
Sem pestanejar, trocou de perfume, mordeu frutas roxas e vermelhas, desamassou sua camisa e verificou a carteira. Não poderia se desenquadrar do cenário, tão bem colocado e com mobília recém-comprada.
Sentou em um sofá com aspecto acinzentado e recriou a chegada da pessoa para habitar o espaço, tão bem construído em seus recentes desejos. Tudo deveria harmonizar-se para que houvesse, certamente, uma chegada.
Ao ouvir cadência de passos, revigorou, em si mesmo, as sensações que mais trariam para si um gosto de felicidade. Tendenciou não  reagir a sua chegada, mas as mãos suadas desvendavam tal proposição. Era quem esperava, por mais que acreditasse nas tantas mentiras, mas, que para seu corpo de homem, representasse um querer por certo ordinário e com riscos de contentamento.
Percebeu no corpo, tão definitivamente feminino, um gosto amargo de quem não estava confortável no tal encontro. Trocaram restos de palavras e, sem explicar, disseram coisas da estação; falas do cotidiano inventado por ambos.
Ele estava gritando por dentro, é certo. Nas quinas da casa, não se sentia a presença dos dois. Eram solitários que desenhavam companhias, eram seres que não concretizaram o olhar. Depois, de várias tentativas, as vontades foram dissipadas.
Ele desceu, com maestria, as escadas que, por um tempo, quis pisar e , nesta exata hora, tornaram-se percalços em sua garantia de um amor tranquilo. Importou-se menos consigo e com possibilidades de um sorriso. Era um homem perdido nas tardes, nas inconstâncias de uma invenção temporal  pós-moderna, nas ausências que determinaram acontecer.


 * Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato ( 19/07/2015)