segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O trágico e a estrela

“Vivendo e aprendendo a jogar/nem sempre ganhando/nem sempre perdendo/mas aprendendo a jogar”(Guilherme Arantes) música interpretada, impecavelmente ,pela  musa Elis Regina costuma inundar meus pensamentos quando me sinto pensando sobre como nós, seres humanos, somos plastificáveis. Temos uma capacidade de nos reinventar sempre que a maré investe contrário, sempre que nosso livro precisa de edições e capítulos.
Esta semana, conversando com uma personagem real, dessas que habitam nossas ruas, ouvindo trechos de sua história com caracteres de superação, percebi, talvez com mais tinta, como somos seres passíveis de tanta coisa. E a letra musicada ecoou em meus ouvidos, mais ainda, nas camadas da minha alma.
A superação vence a covardia e o conformismo. Ela grita que nossa plasticidade inaugura projetos e construções. A gente, destemidamente, vai aprendendo a jogar, colocar as cartas na mesa e onde mais puder. Aprendemos que subir nas árvores não é tão mirabolante e difícil, e criar raízes basta dedicação nos ajustes da terra e das regadas.
Somos trágicos por natureza e isso não pode cristalizar a nossa maior vontade. Estar acima um pouco de você mesmo lhe oferece a chance de ver um pouco ou muito melhor. E, com a visão apurada, o enfrentamento com o invisível e o imponderável é mais fácil. Acrescentamos a isso, experiência, que transforma qualquer um de nós em exclusividade.
Superar-se faz de todos um indivíduo e possuidor de um legado insubstituível. E é o legado, digo aos meus inestimáveis discentes, que nos tornam  únicos e duradouros, visto que a vida é curta. Nesse legado,  pluralizamos nossa palavra e existência.
Não pretendo comercializar a palavra superação, como muito se vende em anúncios de TV e programas de auditório. Considero-a, nestas linhas, como motivo de reflexão, haja vista ser um dos grandes “milagres humanos”. Busco-a como ferramenta para se desbravar o que  vive à espera em nós. Revigoro-a como fruto esquecido ou de tanto tirado do pé, sem esperar o tempo, encontra-se ao acaso.
 Neste jogo, nem sempre transparente, que é vida, é preciso tornar-se funcional e invencível, pois, sem ares de superação, inspirar se torna insustentável. Então, que arregacemos as estimadas mangas e destronemos a passividade e todo compromisso com o neutro e o nulo. Superar requer compreender o trágico como parte da construção da ordem, pois o caos nos ajuda a gerar a estrela, já dizia Nietzsche. Muito sábio, não?

 


Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato

sábado, 8 de agosto de 2015



Quero rodopiar, dançar feito bailarina, ganhar asas como aquele pássaro que atravessou minha janela, quero mergulhar até a crosta, quero sentir até a última gota, quero gritar até que falte fôlego, desejo a esperança mais sem cabimento, inconforma- me enquanto necessário, abraçar até que se sonhe o último sonho. Desejo a esperança sem pé nem cabeça, a fé desencontrada dos sermões, quero a felicidade que aos poucos vem sendo inventada. Alinho minha vida na tal crença que o impossível é logo ali. Estou chegando...


sexta-feira, 31 de julho de 2015

PALAVRA ACESA


“ Tinha desejos incontroláveis de riscar o papel, latejavam seus pulsos para que a sua voz contaminasse a escrita. Serenavam verdades e as palavras amaciavam suas ideias...”. Dia 25 de Julho é o dia do escritor, mas considero todos os dias como o dia daquele que precisa sentenciar toda a sordidez e beleza humana por meio das palavras, transformando significante em significados (Saussure),  sonhos em possibilidades.
O escritor é aquele que se coloca como o porta-voz do imponderável, daquilo que deve ser dito, porém, por muitas vezes, é enviado para os subterfúgios. É capaz de desnudar o que se coloca diante de nós, mas que negligenciamos. Ele é o precursor das certezas e indagações que precisamos conhecer. Sem o escritor, não há registro, não há aspirações. E sem as vontades e os sonhos, morremos entre as cinzas e os vácuos que nos contaminam todos os dias.
Como sujeitos, colocamo-nos à beira do precipício, vivendo a dicotomia da liberdade e do conformismo. E é a escrita que amacia, costura e ao mesmo tempo corta nossa pele bem no profundo para que a dor nos faça reinventariar anseios e o embate. Não há mudança sem palavras, sem a evocação de discurso.
É a palavra que possibilita o voo, possibilita que cavemos o infinito. É o escritor que inunda o caos tão necessário para que deixemos o repouso e a anestesia, injetados várias vezes em nossa alma, para que anunciemos homens dispostos a pensar. Homens dispostos a vencer a danação humana e que se tornem famintos. Uma fome que, de modo algum, deve ser saciada.
Escrevo porque tenho uma fome que não passa. E, por conta dela, desejo que o outro não se sacie. Desejo que o outro se contamine e que, para isso, não haja cura. Escrevo para que o outro tenha sorrisos, mas saiba o porquê das gargalhadas, desejo que o semelhante tenha poesias nos olhos, invisto para que você tenha grito e não renuncie a voz. Escrevo para que a vida ganhe sossego e que nossos pensamentos tenham desordens, pois eles alimentarão mudanças.
Não quero que você seja lampejo, que tenha luz branda e passageira. Desejo que entre em brasa, erupção incessante. A escrita queima, evoca e emancipa. É o devaneio das realidades; a certeza das problematizações. O escritor é o ourives das joias mais raras, das belezas jamais inauguradas, dos hemisférios jamais indagados.

Ser escritor é ter a lâmpada para o que ainda encontra-se adormecido, escuso, preso, empoeirado. É ele que não deixará que renunciemos as nossas quimeras, é ele que trará o carvão para que mantemos a fogueira em meio a tantos invernos. O escritor é a poesia de um dia melhor, pois é a escrita que revigora,  abastece e acende nossa alma. 

Ausente pós-moderno


Naquela segunda- feira, como era rotina, subiu as escadas para adentrar o local tão somente, antes, imaginado. Ali, gostaria de ouvir os melhores verbos e as expressões mais doces. Fazia questão de se apresentar o mais lindo possível para o encontro tão detalhado minutos antes.
Sem pestanejar, trocou de perfume, mordeu frutas roxas e vermelhas, desamassou sua camisa e verificou a carteira. Não poderia se desenquadrar do cenário, tão bem colocado e com mobília recém-comprada.
Sentou em um sofá com aspecto acinzentado e recriou a chegada da pessoa para habitar o espaço, tão bem construído em seus recentes desejos. Tudo deveria harmonizar-se para que houvesse, certamente, uma chegada.
Ao ouvir cadência de passos, revigorou, em si mesmo, as sensações que mais trariam para si um gosto de felicidade. Tendenciou não  reagir a sua chegada, mas as mãos suadas desvendavam tal proposição. Era quem esperava, por mais que acreditasse nas tantas mentiras, mas, que para seu corpo de homem, representasse um querer por certo ordinário e com riscos de contentamento.
Percebeu no corpo, tão definitivamente feminino, um gosto amargo de quem não estava confortável no tal encontro. Trocaram restos de palavras e, sem explicar, disseram coisas da estação; falas do cotidiano inventado por ambos.
Ele estava gritando por dentro, é certo. Nas quinas da casa, não se sentia a presença dos dois. Eram solitários que desenhavam companhias, eram seres que não concretizaram o olhar. Depois, de várias tentativas, as vontades foram dissipadas.
Ele desceu, com maestria, as escadas que, por um tempo, quis pisar e , nesta exata hora, tornaram-se percalços em sua garantia de um amor tranquilo. Importou-se menos consigo e com possibilidades de um sorriso. Era um homem perdido nas tardes, nas inconstâncias de uma invenção temporal  pós-moderna, nas ausências que determinaram acontecer.


 * Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato ( 19/07/2015)

sábado, 13 de junho de 2015


Fraqueza
Entre os objetos esquecidos,
encontrei partes de nós.
Estavam amontoados em poeiras
e arruinados naquilo que não guardei.
Sequenciei  palavras que gostaria ter gritado,
E tentei acondicioná-las às sensações
colocadas nas caixas.
Vieram gostos desconhecidos em minha boca
e um cheiro de ausência.
Segreguei os elementos
que não consegui engoli.
E fui inebriada por lembranças.
Não consegui descartar o que
considerei inútil.
O amor estava ali.
Um pouco sujo, meio sem tom, despedaçado.
Misturava-se aos outros seres
e ocupava boa parte do espaço.
Adquiri o hábito de mudança
e de sempre mexer no que tinha esquecido.
Tenho dificuldades com o que jogo fora,
Gosto de acumular seres e coisas.
Acabo misturando isso.
Importando-me um pouco mais com um.
Junto partes demais
e não tenho pressa de mexer com elas.
Perco noções de espaço e lido
incrivelmente
com bagunças.
Não consigo guardar coisas por cores, tamanhos, formas,
sempre dou um jeito de revirar.
Tenho vazios a serem ocupados
E esses objetos impedem uma
organização mais elaborada.
As partes encontradas de nós
ficarão, por tempo indeterminado,
haja vista minha impaciência
nos detalhes.
nas ordens.
nas reflexões.
Na incompetência para arrumação.




segunda-feira, 8 de junho de 2015

Meus nobres


Caros leitores, é com grande satisfação que volto escrever para vocês. Passei um tempo, é verdade, sem escrever neste canal midiático, mas confesso que pintou saudade. Até porque escrever é ato inerente à minha tarefa de existir. E como disse Simone de Beauvoir “escrever é comungar com o mundo”, é manter diálogo íntimo com a humanidade e alinhavar todos os fenômenos existentes com a nossa capacidade de percepção, crença e pensamento.
Escrever não é decretar sentença nem tão pouco aprisionar ou absolver alguém ou suas considerações. É alimentar o mundo com experiências inaugurais e reinventar alicerces antes não vistos e/ou ressignificados. Não há produção de conhecimento científico, filosófico e artístico sem atrevimento com a escrita. E é por isso que me considero audaciosa.
Gosto, com muito gosto mesmo, registrar considerações e ditar meus verbos com voz de desassossego. Talvez, seja minha única forma de denúncia e de paz. Sei que fui laçada pela escrita e, por mais que tente me enveredar por outras vertentes, sou abduzida pelas letras e pelas palavras.
E nossa língua é um escândalo de tão linda e rica. Temos um idioma difícil, eu sei, mas de uma poesia... incalculável. Somos a quinta língua mais falada no mundo, com aproximadamente 280 milhões de falantes. É muita gente se expressando na nossa língua, dizendo chatices e obviedades, tudo bem, mas muitos falantes utilizando o discurso para produzir elementos inovadores, poemas únicos, letras musicadas atemporais que para todo o sempre ressuscitarão emoções, discursos impactantes e falas que aproximam as pessoas, trazendo para o coração.
Não tem como não amar a escrita, a capacidade de socializar o que antes adormecia na individualidade. A tentativa, porque somos humanos tentando todos os dias, de tornar comunicável o que muitas vezes perece no não dito, no improvável, no cômodo empoeirado das lembranças, nos cortes da alma.
Dizer é humano. Dizer é apropriar-se do outro enquanto há o colóquio, enquanto há a “conquista” por meio das linhas condutoras das palavras. É desnudar-se e descortinar o que se fazia obscuro atrás da janela, da paisagem pouco observada. É considerar que sempre haverá o que se buscar, querer, idealizar e conquistar.
A palavra redesenha o que foi aguardado, adquirido, querido. E sem reinvenção das mundividências, não há sujeito nem tão pouco homem. O homem que se entende como é porque se emoldurou pelos vieses das palavras, costurou suas ideias às não experimentadas, enraizou seus alicerces a jardins frondosos e solos férteis do discurso.

Enfim, prefiro dizer a me calar. Desejo a escrita como sinal de sobrevivência, como pedido de perdão, como agonia, como dor que necessita ser gritada, como poesia que precisa ser encantada. Amo escrever. É da escrita que sustento minha existência e bebo do antídoto, que me faz cada vez mais forte e humana. Obrigada, meus nobres, pela leitura.  



* Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato
Contrários


Somos construídos sob as contrariedades. Sabemos o que é agradável, de odor gostoso, de beleza plena porque, em algum momento da nossa existência, tivemos embates com o que nos perturbava ou causava dor e incômodo aos nossos olhos.
Consideramos a felicidade e agarramo-nos a ela visto que, por tantas vezes, dilaceramos nossa alma e arrancamos, hiperbolicamente, nosso coração. Damos valor aos tratados de paz, pois embarcamos em muitas guerras. Endurecemo-nos porque fomos frágeis demais e muitos já se aproveitaram desta ferramenta.
Nisto que o indivíduo é construído: nas dualidades. E, nelas, teorizamos esperanças e acalentamos tempos melhores. Todavia, é sábio validar que os tempos de sangue e de medo fazem-nos  sujeitos muito mais interessantes.
Então, nada de baixar as mãos naqueles períodos de insônia, de cores cinzentas, de casas no tijolo, de descosturas. São nessas neblinas, de vivência na caverna e nesses tempos de frio, que realimentamos nossos ideais e redesenhamos os alicerces, aqueles que sustentarão as nossas casas por muito tempo.
Sabemos reconhecer o doce por conta do sal, do amargo; amamos um bom perfume por detestarmos os odores desagradáveis; acreditamos no bom porque o mal causou-nos dores irreparáveis, com as quais precisamos conviver e não negligenciar.
Lutamos tanto pela vida, por querermos ver estampas de alegria e ouvirmos gargalhadas porque a morte nos sonda e já provamos do seu gosto amargo e suas sentenças. Inauguramos sentimentos do bem haja vista convivermos lado a lado com toda “sorte” de egoísmo, maldade, desesperança, intolerância, desrespeito e abandono.
Clarice, minha inestimável Lispector, abordou, em um dos seus maravilhosos livros*, os quais todos deveriam ler, que precisamos viver apesar dos de, pois é justamente isso que nos impulsiona, nos aproxima do querer o outro lado; o lado que nos seduz e nos faz encantar tanto pela danada da vida.
Aprendamos conviver com nosso desenho das contrariedades; com nossas asperezas e elementos pontiagudos, sabendo que são eles que alimentarão as doses que nos embebedam de flores, leveza, maciez, felicidade, coragem e força, propulsoras das certezas dos novos e bons dias.



*Uma Aprendizagem Ou O Livro Dos Prazeres

*Texto publicado no Jornal Espírito Santo de Fato, em 31/05/2015